Crítica | FestivalMostra de Tiradentes

O Bagre Africano de Ataléia

(O Bagre Africano de Ataléia, BRA, 2014)

Documentário
Direção: Aline X, Gustavo Jardim
Elenco: Carlos Gomes, Guy Lessa, João Honório, José Fernandes, Josefina Lemos Pereira, Lucas Lemos Pereira, Manoel Marques Lima, Modad Alchaar, Nivaldo Português, Salvador Freitas Botelho, Sebastião Estevão Lima, Soraia Kretli, Vieira Rodrigues, Zarife Alchaar, Zé das Botas
Roteiro: Guilherme Lessa
Duração: 70 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

Há uma certa tendência a abandonar aquela velha ideia de que o documentário não pode receber qualquer intromissão criativa em sua concepção. Hoje, vários documentários utilizam-se da encenação para alcançar o objetivo de retratar determinado objeto ou realidade. É o que acontece com A Gente, de Aly Muritiba, e A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchôa, onde personagens reais encenam para a câmera aquela realidade onde vivem.

O Bagre Africano de Ataléia vai além e, talvez aí, rompa a possibilidade de vínculo com o gênero documental. No filme os diretores também selecionam moradores de Ataleia, pequena cidade de Minas Gerais, mas eles não revivem seu cotidiano. Pelo contrário, recebem papéis ficcionais e precisam representá-los.

Embora queiram divulgar o filme como documental e, por mais que tentem explicar a determinação pela origem do projeto, no momento em que os pescadores assumem a pele de caçador, xamã e oráculo, o longa-metragem perde-se do realismo e se assume como ficção. O vínculo só se mantém por pequenas inserções de depoimentos de outros moradores locais sobre o bagre, um peixe que, inserido artificialmente no Brasil, hoje desequilibra o habitat de várias regiões do país.

O filme parece tentar juntar em si vários outros filmes. O prólogo que mistura o antigo ao novo, com imagens bastante distintas, já dá uma demonstração da intenção dos diretores. Há um pouco de suspense, vários caminhos que não levam a lugar nenhum, interações com a sociedade local e momentos de caça. A quantidade de informações e linhas narrativas distintas acabam fazendo o resultado final não chegar onde poderia.

A sensação que fica é a de uma construção narrativa aleatória, quase experimental, que não consegue ser interessante. Ainda que conte com ótimos momentos de tensão, de contemplação e tenha uma habilidade incontestável em reproduzir nas telas um ritmo que representa o modo de vida daquela sociedade.

A falta de um roteiro, uma vontade muito grande de incluir no filme tudo o que possa fazer sentido à história – as visões de caçador e caça, a lenda e o medo por ela gerado, personagens curiosos do local, entre outras coisas – e a tentativa de mesclar gêneros só não fracassam completamente pela montagem de Rita Pestana. Ela consegue seguir a linha aleatória determinada pelos diretores e dar sentido ao que se vê na tela.

O Bagre Africano de Ataléia tem, portanto, uma ótima premissa, mas se perde na vontade de ser muito mais do que poderia. Um filme que funcionaria mais se optasse pela simplicidade narrativa, mantendo o tom de suspense, que é o que ele tem de melhor.

Um Grande Momento:
O rio à noite.

O-bagre-africano-de-ataleia_cena

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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