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O Baile dos 41

A infelicidade de todos

(El baile de los 41, MEX, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: David Pablos
  • Roteiro: Monika Revilla
  • Elenco: Alfonso Herrera, Emiliano Zurita, Mabel Cadena, Fernando Becerril, Rodrigo Virago, Fernanda Echevarría, Sergio Solís, Álvaro Guerrero, Roberto Duarte
  • Duração: 99 minutos

Na virada do século passado, na cidade do México, um evento que se tornou conhecido como “o baile dos 41” traria a homofobia local para o centro das atenções, caindo como uma bomba na elite mexicana. A festa, que em nada tinha de ilegal, reunira 42 homens, em parte de classes abastadas, que foram encontrados pelas autoridades valsando por um imenso salão, e a metade trajava figurinos femininos. Esse acontecimento completa 120 anos agora, e é pano de fundo de O Baile dos 41, produção dirigida por David Pablos, que estreou no final do ano passado e impressiona por não vender heróis ou mocinhos em cena, mas um grupo de pessoas cuja infelicidade é contagiante.

O filme não julga seus personagens, mas condena todos a uma espiral constante de desentendimento com seus papéis sociais, as normas vigentes de um período e uma casta ainda mais conservadora, além de arrancar do casal protagonista qualquer possibilidade de redenção através de seus sonhos. Eles parecem ter vindo ao mundo para a servidão aos ritos de sua época, e com isso seguem condenados a uma existência-cabide, pendurados a extremidades de acesso aos seus objetivos. Ainda assim, nada do que almejam é minimamente alcançado, vivendo ambos em uma prisão luxuosa, cujo glamour que a estética cinematográfica passa só adiciona concretude. (me faz lembrar ao excesso de rococó em Bela Vingança, outro filme onde seu acabamento visual se transforma em masmorra particular)

O Baile dos 41
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Foto: Divulgação

Pablos segue seu protagonista, Ignacio de la Torre, como uma sombra, com a câmera colada às suas costas, ou escondida entre os cenários, à espreita de algum passo em falso dos desejos que podem escapar dos seus gestos ou olhares, do fardo que carrega em escalar esferas de poder para uma estabilidade que nunca viria, nunca seria saciada ou completamente alcançada. Para isso, ele precisa deixar de ser quem verdadeiramente é, ocupar espaços por necessidade de afirmação social. Se o casamento, ainda hoje, reserva respeitabilidade a quem o faz aos olhos de uma sociedade hipócrita, imagina em 1901?

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Como já citado, O Baile dos 41 é tão evidentemente bonito que sua beleza chega a sufocar, e essa é uma escolha clara da produção. A suntuosidade de seus cenários e figurinos tem a função de situar o espectador não apenas em um período histórico, mas principalmente a um jogo de aparências e de escolhas equivocadas que definiriam seus futuros. Dentro de cada um daqueles planos esteticamente arrojados, e exemplarmente bem desenhados, residem emoções que o filme faz questão de represar, impedindo a verdade de cada um naquele mundo. A casa onde mora o casal protagonista vai de um palácio extravagante até uma gaiola para a insanidade, na construção narrativa que o filme aplica.

O Baile dos 41
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Foto: Divulgação

Tratando de uma produção que coloca na mesma discussão as opressões femininas e de orientação sexual, Pablos não desorienta uma fatia do roteiro de Monika Revilla para beneficiar outro; são dois lados de submissão que, à época, caminhavam ainda mais juntos do que hoje em dia. Tanto Ignacio quanto Amada diminuem o outro, na ânsia de realizar suas próprias benesses particulares — a necessidade de ter identidade, o desejo de ser mãe. Ambos não conseguem irmanar as ausências que sentem, serem empáticos um com outro, não. Se machucam mutuamente e com isso, permitem uma resposta do outro que acaba os levando para seu destino.

Coprodução nacional da Bananeira Filmes, do Canal Brasil e com um nome como o de Vania Catani apertando os parafusos, O Baile dos 41 vai além do que julgávamos ser: um recorte histórico sobre um fato verídico e escandaloso. Sua estrutura permite que entendamos o amor entre pessoas do mesmo sexo, a celebração de um desejo sobre o qual ninguém deveria julgar, a diminuição do papel feminino na História das sociedades, e mais uma vez, a tragédia que pode ser o julgo alheio, a disseminação do ódio e a perseguição, seja ela verbal ou factual, contra grupos minoritários. Se as cenas finais de violência explícita conseguem chocar e revoltar, igualmente atordoante é o julgamento de um pai que exige um neto a uma filha que só queria ser amada.

Um grande momento
Ignacio se prepara para o baile

O filme O Baile foi escolhido por um dos apoiadores do Cenas. Apoie o site e peça o seu!

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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