Embora nascido em Minas Gerais e criado no Rio de Janeiro, o diretor de 77 anos Orlando Bomfim Netto tem raízes capixabas muito fortes. Para tanto, foi pioneiro no registro do cotidiano do Espírito Santo, de onde os seus pais vieram. Na 13ª CineOP, parte de sua obra recebe uma programação especial dentro da Mostra Preservação no Cine Vila Rica, em uma sessão com cinco curtas-metragens restaurados.

De difícil acesso, o recorte da filmografia ganha a tela do cinema graças em parte por Marcos Valério Guimarães e Vitor Graize, respectivamente idealizador e coordenador e produtor executivo do Acervo Capixaba – Orlando Bomfim, Netto. Viabilizado pelas produtoras Afinal Filmes e Pique-Bandeira Filmes, o restauro das produções foi feito a partir dos negativos originais, escaneados em resolução 4K e com produção de cópias em 2K para exibição digital.

Canto Para a Liberdade: A Festa do Ticumbi

Entre os períodos de 1970 e 1980, Orlando Bomfim Netto passou a filmar o costume de um povo fortemente ligado à música e à dança como meios de expressão, bem como a devoção aos credos e trabalhos manuais. Algo muito evidente em Canto Para a Liberdade: A Festa do Ticumbi (1978), primeiro curta do programa sobre a mobilização artística da comunidade negra do norte do Espírito Santo. Também há Mestre Pedro de Aurora (1978), em que a figura-título veio a ser o líder de cantadores e festeiros da Vila de Santana. Em Dos Reis Magos Tupiniquim (1985), o foco é a Vila de Nova Almeida, de onde saiu a primeira pintura a óleo do país, o quadro “Adoração aos Reis Magos”.

As preocupações do realizador também tinham um cunho ambiental. Em Itaúnas: Desastre Ecológico (1979), ele exibiu o desmatamento progressivo do município de Conceição da Barra, que em 1968 havia se tornado inabitável. Também acompanhou o ecologista Augusto Ruschi em um projeto de quatro anos finalizado como um documentário em curta-metragem em que destaca a vida dos beija-flores.

Em todos, Netto manteve as mesmas parcerias, como a com o diretor de fotografia Douglas Lynch, que dava ao seus documentários uma estética particular, como se fizesse uma investigação fotojornalística ainda bela com o excelente trabalho de restauro empregado. Também reforça o seu engajamento político, dedicando os seus filmes à memória de seu pai Orlando Bonfim Júnior, autoridade sequestrada e executada na ditadura militar, com o seu corpo jamais encontrado para sepultamento.

Foto: Jackson Romanelli