- Gênero: Documentário
- Direção: Rivelino Mourão
- Roteiro: Rivelino Mourão
- Duração: 64 minutos
-
Veja online:
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
Um Brasil que dança, carrega, reza e deseja ao mesmo tempo, sem separar muito bem onde termina a fé e onde começa o corpo. Isso é o que está em O Cio da Terra, documentário de Rivelino Mourão, que, de certo modo, faz a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, deixar de ser celebração e virar linguagem.
Mais do que pano de fundo, o evento tradicional é o próprio campo de batalha simbólico do filme. Desde 1928, no município cearense de Barbalha, homens atravessam quilômetros carregando um tronco que será erguido diante da igreja, num gesto coletivo que mistura devoção e exibição física. O que poderia ser apenas tradição religiosa ganha outra camada quando observado de perto: trata-se de um ritual profundamente marcado por códigos de masculinidade, força e pertencimento. O pau erguido em homenagem ao santo casamenteiro, monumental, carregado por corpos masculinos, é uma imagem que fala por si.
Porém, Rivelino Mourão não filma a festa como quem documenta um evento. Ele se infiltra. Circula entre corpos, vozes e gestos, captando essa zona onde o sagrado e o profano não se anulam, mas se atravessam continuamente. E é justamente aí que o padrão heteronormativo começa a ranger, pois aquilo que parece tão rígido, tão codificado, começa a revelar fissuras. O desejo escapa pelas bordas, o olhar não se comporta e o corpo também não.
Algumas personagens do filme e seus depoimentos funcionam como desvios dentro de um sistema, surgindo como forças que deslocam o eixo da festa. Cada um, à sua maneira, reconfigura o espaço que ocupa, em uma disputa silenciosa que acontece o tempo todo. Quem pode existir ali? Quem pode desejar? Quem pode ser visto?
É nessa presença – e no pertencimento – que o documentário encontra sua maior força. Ao invés de confrontar diretamente o modelo heteronormativo, ele o expõe até que ele se revele ultrapassado e insuficiente. A virilidade se sustenta como imagem compartilhada, reiterada a cada gesto, enquanto a tradição se mostra como construção que precisa ser continuamente reafirmada. Existe um saber ali, compartilhado, sobre como ocupar aquele espaço, como se mostrar, como sustentar o gesto coletivo.
O corpo não aparece como algo espontâneo, mas como algo aprendido, repetido e afirmado diante do outro. Embora deixe suas intenções evidentes, o docmentário não assume uma posição de denúncia ou reprovação. Ele mostra como esse modelo se organiza e se reafirma o tempo inteiro. Ao fazer isso, abre um novo espaço para aquilo que não se encaixa.
Em sua observação, O Cio da Terra se infiltra na festa também por outros caminhos, buscando que ela se revele por inteiro, com suas contradições, seus excessos e seus vazamentos. Talvez seja aí, inclusive, que o título faça mais sentido: o cio não está só na terra, mas nos corpos que a atravessam, como um impulso que não se deixa domesticar. Nem pela religião, nem pela tradição, nem pela normatividade.
Um grande momento
Casados aos olhos de Santo Antônio


