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O Culpado

O apego ao exagero

(The Guilty, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Antoine Fuqua
  • Roteiro: Nic Pizzolatto, Gustav Möller, Emil Nygaard Albertsen
  • Elenco: Jake Gyllenhaal
  • Duração: 90 minutos

Parece que na cartilha do cinema estadunidense, no capítulo de refilmagens e adaptações, tem alguns parágrafos destinados a como enfeitar, exagerar e explicar — bem explicadinho — tudo o que está no roteiro. Mais um filme que vem para provar isso é a grande estreia da semana na Netflix O Culpado, protagonizado por Jake Gyllenhaal e dirigido por Antoine Fuqua, versão americana do dinamarquês Culpa. Se o filme europeu primava pelo minimalismo e se concentrava nos detalhes, aqui já começamos com incêndio, helicópteros, monitores gigantes e muitas interferências para formar a identidade do protagonista Joe Baylor. 

Em Culpa tudo se constrói com pouco: closes, luzes, silêncios e é impressionante como Asger, em sua contenção, é um personagem muito mais interessante do que o descontrolado e impulsivo Joe, aliás alguém bem no padrão Fuqua. As diferenças do filme de Gustav Möller, que inclusive podem ser conferidas já que o título está disponível no Prime Video e no Telecine, estão só na casca, já que o roteiro mantém-se basicamente o mesmo, com diálogos exatamente iguais — é até engraçado ter Nic Pizzolatto assinando a adaptação por apenas colocar algumas cenas adicionais, adocicar a trama com eventos familiares e escolher uma cartela inicial.

O Culpado
Glen Wilson/Netflix © 2021

Mas não falemos de um filme comparando-o com o outro apenas. Independente de para onde vem e de onde vem, O Culpado tem inegáveis problemas com os seus exageros. Há uma certa incontinência que prejudica o andamento das coisas. O longa tem duas tramas paralelas que dependem do suspense e do clima de ansiedade crescente, mas o diretor e o próprio Gyllenhaal estão tão preocupados em impressionar e demonstrar essa tensão que a obviedade acaba estragando as coisas.

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O diretor quer a todo custo transformar aquilo que filma em algo mais atraente. Para ele, um thriller não pode se construir apenas com palavras e sentidos, é preciso haver um caos visual, forçar nas cores, movimentos e eventos. E o mesmo cabe ao tormento do protagonista, marcado por gestos e ações sempre muito acima do tom. Falta perceber que tanto a chamada telefônica quanto o drama do personagem teriam muito mais força se não estivessem escondidos entre tanta coisa.

O Culpado
Netflix © 2021

Apesar de tudo isso, a produção tem algo que nem mesmo toda essa profusão de informações, ruídos e arroubos consegue estragar. A história por trás de tudo é interessante e o modo como se encaminha até o final, construindo o suspense, pelo menos para aqueles que nunca tiveram contato com a trama, faz aquilo que um bom thriller deve fazer: surpreender quem o assiste. As pequenas e grandes revelações fazem com que o espectador volte ao filme e se conecte novamente a ele, esquecendo da distração que outros penduricalhos, como a tentativa do drama familiar ou do caráter arredio de Joe, causam.

Na balança, O Culpado vai valer pela surpresa e pela ansiedade, mas vai vir com todas as questões fuquianas já conhecidas e sempre cansativas (obviamente que só para aqueles que não se identificam com o cinema do realizador). Além disso, tem também o peso de ser uma adaptação e, como toda adaptação, ter todas aqueles pontos de facilitação, explicações excessivas e banalização já citadas. Mas, para quem chegou pela primeira vez, nada disso vai ser um problema.

Um grande momento
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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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