(O Desmonte do Monte, BRA, 2017)
Documentário
Direção: Sinai Sganzerla
Roteiro: Sinai Sganzerla
Duração: 85 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

Em seu longa de estreia, Sinai Sganzerla propõe uma viagem à origem dos males do Brasil. Ao resgatar as histórias por trás do Monte do Castelo, marco simbólico da criação da província de São Sebastião, hoje o Rio de Janeiro, demonstra que muito do que existe hoje em dia, principalmente em exclusão, vem de condutas repetidas desde que o local fora tomado dos indígenas que aqui habitavam.

O Desmonte do Monte, em um primeiro momento, chama a atenção pela vastíssima pesquisa iconográfica, que resgata gravuras, fotografias e vídeos para ilustrar sua jornada ao passado. O trabalho de resgate também chama a atenção na trilha sonora, que mescla soul com sons indígenas, variações africanas e até marchinhas de carnaval. A atriz Helena Ignez, mãe da diretora, é a responsável por guiar o espectador, com uma narração provocativa e, por vezes, pontuada pela ironia.

O conjunto estético e aquilo que se conta conseguem despertar o interesse, algo que acaba prevalecendo, inclusive, a alguma irregularidade na distribuição do material e a alguns excessos que mais distraem do que acrescentam. Isso porque a escolha por uma construção narrativa que baseia-se muito no texto e segue uma linha histórica tem dificuldades naturais que nem sempre são superadas.

Mas, mesmo que encontre alguns percalços, o que fica do longa-metragem é toda a deturpação social que traz e que pode ser reconhecida hoje do mesmo jeito que antes. Algo que começa com uma guerra com os franceses que invadiram o local – com direito a manipulação de nativos para alcançar um objetivo político – e, passando pela dominação de boa parte do território nacional por uma única família, chega à reiterada expulsão de pessoas pobres e excluídas de um território em nome do desenvolvimento.

Aquela mesma configuração, que une o governo e a igreja, possibilita o jogo sujo de compadrios de empresas privadas, faz uso de ligações escusas com os veículos de imprensa e estimula o racismo como forma de manutenção de poder, está naquele lugar desde sua inauguração. Aquela mesma terra, onde até hoje a repressão é contraditoriamente utilizada como arma pacificadora, onde a igreja ocupa o poder supremo e onde negros e negras são metralhados nas ruas sem que ninguém pague por isso.

O Desmonte do Monte constrói um retrato claro de uma realidade que está sempre se repetindo e de uma sociedade fundada em bases doentias e equivocadas. E que encontra no Rio de Janeiro uma espécie de modelo para todo o resto do país. Mas é no conhecer o passado e a origem das mazelas, cada vez mais, que se pode, realmente, tentar reverter as discrepâncias e buscar um novo futuro.

Um Grande Momento:
Pacificados pela violência.