Crítica | Cinema

O Diabo Branco

Não é tão feio quanto gostaria…

(El diablo blanco, ARG, 2019)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Ignacio Rogers
  • Roteiro: Santiago Fernández, Paula Manzone, Ignacio Rogers
  • Elenco: Ezequiel Díaz, Violeta Urtizberea, Julián Tello, Martina Juncadella, William Prociuk, Nicola Siri, Ailín Salas ... Anahí Teresita Terraf Teresita Terraf
  • Duração: 83 minutos

Parece minimamente curioso que uma produção argentina tenha se aventurado em tentar capturar os códigos e tiques da tradição de uma fatia do cinema de horror norte americano, aquele que trata de maldições, possessões e sacrifícios humanos. Fazendo de uma espécie de camping seu cenário principal (posteriormente deslocado para um hotel semi-fantasma), O Diabo Branco é o tipo de curiosidade instigante que te arrasta pelo pé de cara pela sua estranheza contagiante. Como uma produção de gênero que busca a sedução pela ambientação e pela posterior apresentação de seus gatilhos, o filme não consegue cumprir o que parecem ser seus intentos.

Ignacio Rogers é um ator feito diretor em estreia também como roteirista, que tenta ampliar em seu projeto uma combinação de muitas chaves para o terror naturalizado pelo cinema estadunidense. Como colonizados, entendemos que a influência de sua visão sobre o audiovisual foi fundamental para formarmos uma visão sobre o horror que dificilmente consegue se descolar de nossas visões e expectativas com as obras. O autor coloca em perspectiva múltiplas camadas de referências de gênero, indo do cenário típico do slasher até às figuras fantasmagóricas só vistas pelo protagonista, que parece gradualmente possuído, aos poucos criando uma atmosfera de desassossego de ideias.

O Diabo Branco
Divulgação / Pandora Filmes

Assim como tradicionalmente acontece nessas produções, também em sua versão hermana os personagens estão à disposição de uma ignorância profunda em relação a tudo que os cerca. Os avisos de perigo são constantes e repetitivos, crescentes e cada vez mais óbvias, e ainda assim inexplicavelmente (ou melhor dizendo, com a conveniência tão forte do roteiro que fica nítido seu propósito) cada um faz as maiores bobagens a troco de… bom, creio que a troco de morrer, já que nada justifica porque personagens encontram figuras fantasmagóricas na noite escura, descubram um corpo degolado na floresta e ainda sigam desafiando o perigo, e nossa irritação.

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O que enfim poderia ser utilizado com ironia pela produção, essa constante entrega deliberada ao perigo de seu grupo em especial o protagonista Fernando que mesmo diante do risco de morte iminente persevera em direção ao mal, acaba não sendo elaborada de forma alguma, nem narrativa nem imageticamente, e o que poderia ser um dado diferencial soa só como mais um tique irritantemente repetido. Mesmo as atitudes dos ditos vilões soam confusas e desencontradas, a temporalidade e as luzes usadas pela fotografia atrapalham muito mais que ajudam no entendimento geral, criando uma ilusão errada sobre o quadro apresentado.

O Diabo Branco
Divulgação / Pandora Filmes

Toda essa área nebulosa poderia ser igualmente aproveitada de maneira positiva pelo filme, se fossem criadas diretrizes mínimas para sustentar essas ideias fincadas em surrealismo, mas para cada insistência nessas cenas, sobram incômodo para com as resoluções do roteiro e faltam suporte para encarar cada uma dessas decisões como ampliadas para suas tentativas de fabular com substância. Sem maturidade para articular a quantidade de detalhes que precisaria para posicionar seu filme ou no lado referencial ou na brincadeira exagerada, O Diabo Branco acaba não indo a lugar nenhum, apesar das intenções – só não sabemos para onde.

Um grande momento
A primeira sequência

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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