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O Diabo de Cada Dia

(The Devil All the Time, EUA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Antonio Campos
  • Roteiro: Antonio Campos, Paulo Campos
  • Elenco: Robert Pattinson, Tom Holland, Bill Skarsgård, Haley Bennett, Riley Keough, Harry Melling, Sebastian Stan, Mia Wasikowska, Eliza Scanlen, Jason Clarke, Douglas Hodge, Drew Starkey
  • Duração: 138 minutos
  • Nota:

Fanatismo religioso, misoginia e violência contra a(s) mulher(es), todo o tipo de desvio de caráter, sodomia e assassinos seriais: a lista de temas tratados em O Diabo de Cada Dia, longa de Antonio Campos (de Simon Killer) baseado em livro de Donald Ray Pollock – que também narra o filme – é enorme, e se acumula a cada bloco de cenas. A origem literária do filme fica clara rapidamente, quando nos damos conta que se trata de uma colagem de eventos acontecidos durante mais de 20 anos na vida de um mosaico de personagens, todos que se interligarão de alguma forma ao longo da produção.

Apesar da experiência de Campos com inúmeros desvios humanos de ordem práticas e psicológicas em seus trabalhos anteriores, uma adaptação literárias (do próprio) tem suas especificidades, e empilhar eventos, pessoas, tempos e motivações não é necessariamente um meio eficaz de transpor mídias. Na ânsia de dar conta de um calhamaço de acontecimentos, de sublinhar os elos que unem cada parte da história, de criar uma substância orgânica para as diferentes fatias de uma mesma obra, o diretor acometeu-se dos erros comuns ao caso, não enxugou a contento o material original e assim realizou um filme que teria muito mais a ser desenvolvido, onde, talvez, somente uma minissérie desse conta.

O Diabo de Cada Dia

Campos ensaia uma proposta narrativa convencional pela primeira vez em sua filmografia, que é marcada pela absorção da peculiaridade de seus personagens no ritmo do longa. Lidando geralmente com tipos cujas idiossincrasias estão ligadas a distúrbios sociocomportamentais em reflexo ao estado da América, que costuma refletir essa mesma desordem denunciada, em O Diabo de Cada Dia, ele desenvolve um painel social assumido, com os pontos focais sendo evidenciados para comentar o flagelo de uma nação, que se embrenha por demônios nascidos e alimentados por guerras para conectar-se aos males já adquiridos pelo país ontem e hoje.

Ao acumular tantas fatias de eventos, embaralhando os tempos sem justificar essa decisão, o filme deixa de dar potência ao seu discurso para tentar canalizar as pastas de acontecimentos em ordem. Com isso, perde em estrutura dramática em nome de um virtuosismo vazio sem naturalismo ou propósito. A montagem não consegue concatenar a ideia do projeto, que acaba carecendo de descanso e de suavidade, tendo em vista a enorme quantidade de plots que se desenrolam e que deixam a produção pesada, repleta de excessos que não desenvolvem os temas do filme, apenas parece enfileirá-los.

O Diabo de Cada Dia

O elenco acima da média tem pouco a fazer e as escalações embora acertadas não parecem fazer jus aos profissionais. Tom Holland está à vontade com um personagem difícil que deve ter muito mais desenvolvimento no livro, e Harry Melling, tal como em The Old Guard, está o oposto, afetado, exagerado e desinteressante. Mesmo que obedeçam a um roteiro problemático, o elenco se desperdiça em cena, com exceção de Robert Pattinson, que, de fato, não cansa de impressionar. Enquanto Melling criou um tipo agudo e sem qualquer nuance, Pattinson atua no registro contrário, capturando várias camadas de um homem grotesco através de uma representação adversa, detalhada e introspectiva.

Levando o conceito de mosaico do elenco à narrativa e não encontrando o equilíbrio necessário para desenvolver suas matizes sem esvaziá-las, O Diabo de Cada Dia se perde em seus excessos (de denúncias, de tom, de tramas, de sangue, de intenções) e com isso mantém seu autor ainda longe de um acerto superlativo, repetindo narrativamente aqui o que tinha feito esteticamente com Christine – sufocando o material até não restar mais o interesse inicial, restando apenas a exaustão com o acúmulo, para onde se olha.

Um grande momento
Confronto na paróquia

Ver “O Diabo de Cada Dia” na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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