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The Old Guard

(The Old Guard, EUA, 2020)

  • Gênero: Ação
  • Direção: Gina Prince-Bythewood
  • Roteiro: Greg Rucka, Leandro Fernandez
  • Elenco: Charlize Theron, KiKi Layne, Matthias Schoenaerts, Marwan Kenzari, Luca Marinelli, Chiwetel Ejiofor, Harry Melling, Van Veronica Ngo, Natacha Karam, Mette Towley, Anamaria Marinca, Micheal Ward
  • Duração: 125 minutos
  • Nota:

Charlize Theron é daquelas raras artistas que credibiliza praticamente qualquer projeto. Indo de uma comédia sem compromisso como Casal Improvável até seu último produto oscarizado, o decepcionante drama O Escândalo, os filmes podem até mudar de qualidade, mas o que Charlize carrega para um projeto não tem preço. Com a exceção do assustador (pelos motivos errados) A Última Fronteira, sua presença pode até não ter elevar todas as produções onde esteve, mas agregou valores incondicionais porque ela claramente acredita em cada personagem que interpreta, em cada narrativa que se envolve. Seu comprometimento salta da tela e captura o espectador, seja como uma mãe que recorda sua juventude perdida ou como uma guerreira futurista. Aqui em The Old Guard, sua mágica pode parecer indispensável ao conhecer sua sinopse, mas o filme de Gina Prince-Bythewood conta com inúmeros trunfos.

A partir do nome e das origens ancestralmente desconhecidas de sua protagonista, fica claro que tanto a HQ que o inspirou quanto o longa beberam em mitologia grega pra desenvolver seu enredo. Andrômaca significa “aquela que luta como um homem”, porém a Andy de Charlize vai além de ser exímia em práticas de auto defesa. Sua história trágica através dos séculos será narrada paulatinamente e encontrará eco em todo o roteiro, que vai além do vazio de narrar uma situação fantástica. Uma de suas grandes qualidades inclusive é nunca zombar dos seus eventos, que são observados a partir de uma ótica não apenas adulta, como absolutamente desprendida de ícones surreais; o que vemos em sua abordagem é um profundo respeito por cada desdobramento do enredo, suas construções e consequências.

Charlize Theron em The Old Guard (2020)

Outra das protagonistas da produção é a jovem soldado Nile Freeman, cujo sobrenome (“homem livre”) reflete tudo que ela progressivamente deixa de ser em seu percurso, uma liberdade que ela talvez só recupere quando aceitar sua existência como uma missão – e é simbólico que esse mesmo sobrenome seja apresentado quando justamente essa condição se imponha a ela.

The Old Guard não versa sobre o que outras ficções científicas desenvolvem, até que nem há uma intenção de abraçar a fantasia, quase pelo contrário. Com a já citada seriedade que o roteiro de Greg Rucka (também criador da graphic novel), as cenas de ação são eficientes e algumas até empolgantes, como o clímax para o desfecho e a que “abre” o filme. Mas quem procura por aqui mais uma aventura rasteira e anabolizada, veio até o produto errado – aconselho procurar o recentíssimo Resgate, protagonizado por Chris Hemsworth na mesma Netflix. Aqui, não há uma busca por seus semelhantes para que o preconceito social contra quem não é aceito se aplaque; os X-Men também não residem aqui. Se uma palavra pudesse definir o filme, provavelmente ela seria empatia.

Charlize Theron em The Old Guard (2020)

É em nome de reconhecer no outro (ou não) as dores que você também sente, poder ir além do reconhecimento e se colocar no lugar do próximo (ou não) para dar um passo rumo ao entendimento, é para desejar da forma mais altruísta possível o bem comum (ou não), que o longa da diretora dos intensos Além dos Limites e Nos Bastidores da Fama prega, e ele nem está livre de parecer piegas ou deslocado vez por outra não, mas é quando exigido que percebemos que Charlize Theron não é uma tábua em que o filme precise se agarrar pela salvação. Todo o elenco corresponde ao chamado de humanidade, e deixa aflorar seus sentimentos mais mundanos em torno de pessoas ditas extraordinárias. Exceto o vilão vivido por Harry Melling caindo nos estereótipos que se espera do tipo e deslocando o ritmo, o elenco apreende a proposta de internalizar as questões seculares em passagens focadas ou até mesmo em diálogos triviais.

A natureza deprimida de Booker, por exemplo, contrasta com a vivacidade transbordante de Joe e Nicky, e essa diferença é verbalizada em tons claros de amargura em determinado momento, que acaba por conferir ao filme uma profundidade de reflexão que um olhar empobrecido não estaria apto a julgar. O filme propõe uma amplitude de escopo sobre aquelas vidas, dando um aspecto ao mesmo tempo singular e anônimo a cada uma delas. Não é à toa que as cenas que o espectador irá carregar de The Old Guard passem longe das sequências de ação, e não por demérito destas, mas por extremo mérito do recolhimento de cada um de seus personagens, pelos detalhes das minúcias nas cenas, pelo trabalho de continuidade muito especial, pela delicadeza com que aborda a perda antes, durante e depois de acontecer – e em alguns casos, centenas de anos depois.

Charlize Theron em The Old Guard (2020)

A despeito do toque que cada um do elenco emprega na produção, da montagem afiada de Terilyn A. Shropshire até a abordagem sem glamour acerca de seres diferenciados, é pela continuidade e elegância do trabalho do elenco que The Old Guard encontra seu lugar. E se a credibilidade e o incrível talento de Charlize Theron a colocam no corpo e na alma do filme, o coração aqui se chama Matthias Schoenaerts. Seu Booker transborda a inquietação que Anne Rice nos apresentou com o seu Louis em Entrevista com o Vampiro, e é através do personagem que o lado obscurecido das questões do filme vem a tona, todas impressas no olhar desesperançado de Matthias. Quando ele lança seus dados, acreditamos sinceramente em ter ouvido sua mágoa pelos últimos 300 anos, no mínimo. Sua presença abrilhanta um filme que ultrapassa sua modéstia.

Um Grande Momento
Booker revela sua dor.

Netflix

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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