Especial

Hamilton

(Hamilton, EUA, 2020)

  • Gênero: Musical
  • Direção: Thomas Kail
  • Roteiro: Ron Chernow (livro), Lin-Emanuel Miranda
  • Elenco: Lin-Emanuel Miranda, Leslie Odom Jr., Daveed Diggs, Renée Elise Goldsberry, Jonathan Groff, Chris Jackson, Jasmine Cephas Jones, Okieriete Onaodowan, Anthony Ramos, Phillipa Soo
  • Duração: 160 minutos
  • Nota:

A ideia de um musical que se baseia na vida do primeiro secretário do tesouro dos Estados Unidos não é muito convidativa à primeira vista, mas um pouco mais de informações sobre a conturbada história de Alexander Hamilton vai mudando isso aos poucos. O político, nascido no Caribe, perdeu a mãe para uma doença ainda pequeno, foi adotado por um primo que suicidou e mandado para os Estados Unidos graças a uma vaquinha de leitores que achavam o jovem promissor. A peça, baseada no livro de Ron Chernow, acompanha sua carreira meteórica, com a participação na revolução pela liberdade do país até se tornar o braço direito do presidente George Washington, o “ten-dollar founding father”, e sua derrocada.

Escrita e estrelada por Lin-Manuel Miranda, um dos mais brilhantes compositores da atualidade, responsável também por In The Heights, o musical traz à tona a participação dos imigrantes na história dos EUA e se tornou um dos maiores sucessos da Broadway, com sua instigante mistura de rap, jazz, blues, entre outros estilos musicais, e um elenco composto majoritariamente por negros e latinos.

Lin-Emanuel Miranda, Leslie Odom Jr., Daveed Diggs, Okieriete Onaodowan e Anthony Ramos em Hamilton (2020)

Na última semana, em comemoração ao 4 de julho, o canal Disney Plus exibiu pela primeira vez Hamilton na televisão, não uma adaptação, mas a apresentação filmada. Assistir a espetáculos gravados nem sempre é muito interessante, principalmente pela diferença de formato e pela relação estabelecida com o público, bastante particular nas duas artes. Mas isso acaba não sendo algo que importe muito. A potência das músicas e a história contada, ainda que num cenário simples e sem tantos efeitos visuais, como é comum nos musicais da Broadway (vide O Fantasma da Ópera ou A Bela e a Fera), são o suficiente para despertar e manter a atenção em suas 2h40 minutos de duração.

Toda a elaboração se concentra na disposição das cenas e em um palco giratório que possibilita a criação de novos espaços e dá movimento àquilo que se vê. Há um momento em particular, na execução de “Satisfied”, durante o brinde de Angelica ao casamento da irmã e Hamilton, que apresenta um deslocamento temporal que coloca no bolso vários flashbacks do cinema.

Lin-Emanuel Miranda em Hamilton (2020)

Claro que a escolha do elenco também é fundamental para dar ritmo e manter a história. Embora a genialidade de Miranda não se estenda a sua capacidade interpretativa, mesmo que esta não comprometa o resultado final, um dos destaques do musical está nas atuações, em especial as de Daveed Diggs (de Ponto Cego) como Marquês de Lafayette e Thomas Jefferson, Renée Elise Goldsberry (da série The Good Wife) como a mais velha das irmãs Schuyler, Leslie Odom Jr. (de Harriet) como Aaron Burr, e Jonathan Groff (o dublador de Kristoff em Frozen) como o divertido Rei George.

Outra qualidade inegável está nas músicas do compositor e no modo como ele constrói com ela a narrativa. Se a apresentação do personagem e toda a sua trajetória são resumidas em um único número: “Alexander Hamilton”, o tom assumido no primeiro ato é variado, indo da posição do colonizador na ótima “You’ll Be Back” à representação da guerra. Com a declaração da liberdade, o segundo ato quase se transforma em um novo musical, ponto reafirmado com o retorno de Jefferson à América. Outras influências musicais ganham destaque e se incorporam a uma trama mais política, que alterna bem o humor e explora todo o carisma e talento de Diggs.

Renée Elise Goldsberry, Jasmine Cephas Jones e Phillipa Soo em Hamilton (2020)

Hamilton dá uma nova roupagem a uma história que, apesar de curiosa, costuma ser contada da maneira mais quadrada possível. Mas é bom ressaltar que, apesar de ser um musical com várias qualidade, que se preocupa com a representatividade e a representação, destacando pontos políticos importantes, não deixa de ser um musical da Broadway feito de estadunidenses para estadunidenses, com o tom ufanista e a exaltação já conhecidas das produções de lá.

Apesar das limitações culturais por ser uma história muito regional, Hamilton ultrapassou essas barreiras. Seu grande sucesso nos palcos destacou Lin-Manuel Miranda, alavancando sua carreira e levando-o à Disney, onde já compôs várias trilhas e canções para os estúdios, como as dos últimos filmes da saga Star Wars, Moana, Wifi Ralph: Quebrando a Internet e O Retorno de Mary Poppins, onde também interpreta Jack.

Daveed Diggs brilha em Hamilton (2020)

Hamilton não estava em cartaz nos palcos brasileiros antes da pandemia e não tem previsão e nem cabimento de estrear por aqui, mas assistir à gravação ou apenas conhecer suas músicas é uma experiência que vale a pena. A direção de Thomas Kail na versão filmada poderia tentar se concentrar na linguagem que tem como base, sem tantos cortes e ângulos aleatórios que não contribuem e muito menos fazem parte da experiência de espectadores de um musical no teatro, mas, ainda assim, a peça é imperdível.

Um Grande Momento
“To the groom…”

Rodrigo Strieder

Quase publicitário, nerd, viciado em ficção científica, jogos e cinema, foi o primeiro participante do projeto Crítico Mirim do Cenas de Cinema. Depois de participar como jurado de festivais, arriscou suas primeiras linhas e segue até hoje escrevendo.

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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