Crítica | Festival

12 Pessoas com Raiva

Outros tempos, novas possibilidades

(12 Pessoas com Raiva, BRA, 2020)

  • Gênero: Drama
  • Direção: Juracy de Oliveira
  • Roteiro: Reginald Rose, Juracy de Oliveira
  • Elenco: Enio Cavalcante, Gabrielly Arcas, Gilson de Barros, Giovanna Araújo, José Henrique Ligabue, Leandro Vieira, Mariana Queiroz, Maurício Lima, Múcia Teixeira, Nely Coelho, Ralph Duccini e Tatiana Henrique
  • Duração: 75 minutos
  • Nota:

Peça teatral “filmada”, 12 Pessoas com Raiva é um reflexo das novas possibilidades e necessidades da arte. Após a pandemia Covid-19, foi preciso se reinventar, trazer a ocupação para um outro lugar, estabelecer um novo vínculo – agora distanciado – com a plateia. Atuada e transmitida pelo Zoom, a apresentação foi selecionada para a 14ª Cine BH. Dirigida por Juracy de Oliveira, é uma adaptação da peça “Twelve Angry Men”, de Reginald Rose, que também já esteve nos cinemas com o clássico filme de Sidney Lumet com Henry Fonda.

Atualizar um texto que já tenha tido tratamento para os palcos e as telas e o apresentar em uma mescla das duas artes possibilitada pela a nova realidade – tanto restritiva pelo coronavírus quanto sem fronteiras pela tecnologia – é uma experiência muito interessante. Ainda que o enredo não encontre possibilidade no direito brasileiro, como já foi explicado na coluna Direito em Cenas, as figuras por trás da história não muda. Não há dúvida razoável que supere o preconceito, e isso é do ser humano.

Curioso também ver a transformação do meio. Com o teletrabalho e os encontros virtuais, o Zoom, assim como outras plataformas, tornaram-se algo comum durante o isolamento social. A relação dos espectadores com o “palco virtual”, portanto, é muito diferente daquela de antes. Aqui o cinema tem uma vantagem diante do teatro, pois a televisão – hoje ainda mais com os canais de streaming – já tirara o rito do deslocamento, tornando a casa, o sofá e a cama lugares comuns para ver filmes. Embora o estranhamento do espetáculo teatral seja maior, para público e atores, justamente pela ausência de interação, o fato de ver um filme em uma ferramenta de trabalho também não passa despercebida.

12 Pessoas com Raiva

E por ser algo tão presente, tão comum e, ao mesmo tempo, tão diverso e diferente, 12 Pessoas com Raiva atrai a atenção, que consegue se manter com o texto, pontualmente atualizado. A disposição cênica é a mais comum distribuição em telas: os 12 jurados são colocados em janelas individuais lado a lado, completando um mosaico em tela cheia que vai deixar de ser visto para interações que ajudam a trazer o texto para os dias de hoje, como o compartilhamento de tela para demonstrar algo em um site de vendas online.

Com todos em cena, a carga sobre os atores é grande. Em cidades diferentes, cada um em sua casa, eles vão se entregando aos papéis pré-estabelecidos. A associação interregional tem o nome de Pandêmica Coletivo Temporário de Criação e um elenco muito variado não só em sotaque, mas também em forma de atuação. É o que traz um charme adicional ao espetáculo, que consegue prender o espectador de uma maneira que a falta de interação talvez tomasse como impossível. Como no texto de Rose, o embate entre os dois antagonistas – aquele que crê na culpa e aquela que acredita na inocência – é o que mais se destaca, nos discursos inflamados e nojentos do jurado 03 de Gilson de Barros e na manipulação sutil da jurada 08 de Tatiana Henrique.

Presos pela história e, curiosamente, pelo dispositivo, o espectador acompanha cada ator encontrar o seu espaço, desde os mais inflamados, como Leandro Vieira e Maurício Lima, até os mais contidos, como Ralph Duccini, Gabrielly Arcas e Mariana Queiroz. A repulsa despertada pelos personagens de José Henrique Ligabue, Vieira e Barros, todos porta-vozes de discursos que se tornaram aceitáveis e são fortemente difundidos entre eleitores assumidos de Bolsonaro ou aqueles que votaram no Amoêdo e anularam o voto no segundo turno, estes aqui personalizados na jurada 04 de Giovanna Araújo. Completam o elenco Nely Coelho, Múcia Teixeira e Ênio Cavalcante com passagens também marcantes.

Embora tenha fôlego, 12 Pessoas com Raiva começa e segue muito bem, mas perde o vigor em seu final, com uma interação pouco funcional entre as juradas 08 e 09. Ainda que o meio seja bem utilizado para a dispersão dos personagens, afinal de contas, janelas que se fecham são bastante eficazes, é como se o desfecho não chegasse a acontecer realmente. Mas, apesar disso, é um experiência que vale a pena ser vivida e uma nova forma de se criar novas realidades e contar outras histórias, transformando-as caso sejam conhecidas.

Um grande momento
O jurado 11 fala o que todo mundo quer falar para o jurado 07

[14ª Mostra CineBH]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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