Crítica | Festival

O Cemitério das Almas Perdidas

(O Cemitério das Almas Perdidas, BRA, 2020)

  • Gênero: Terror
  • Direção: Rodrigo Aragão
  • Roteiro: Rodrigo Aragão
  • Elenco: Carol Aragão, Renato Chocair, Diego Garcias, Francisco Gaspar, Markus Konká, Allana Lopes, Thelma Lopes, Caio Macedo, Clarissa Pinheiro, Roberto Rowntree
  • Duração: 95 minutos
  • Nota:

Rodrigo Aragão é hoje um dos grandes nomes do cinema de horror no Brasil. Dono de uma habilidade ímpar na construção de ambientes e na criação de efeitos visuais, começou seus filmes num esquema totalmente caseiro com o longa-metragem Mangue Negro e seu talento fez os orçamentos aumentarem cada vez mais. Seu novo filme, O Cemitério das Almas Perdidas, lançado no 10º Cinefantasy, é um longa bem mais elaborado, mas que não deixa para trás as origens de Guarapari, a cidade que o viu despontar.

Embora menos considerado do que deveria, o fantástico como gênero é um campo muito prolífico para a crítica e para abordar os problemas da sociedade. No horror, há uma liberdade de produção de universos e alegorias que os outros gêneros cinematográficos nem sempre conseguem dispor. Em O Cemitério das Almas Perdidas, voltamos à origem da colonização e nas marcas que esta deixou na história do Brasil.

O Cemitério das Almas Perdidas (2020)

A trama parte de um lugar comum para filmes de gênero, uma relíquia macabra, com poderes de despertar o mal em alguma forma. Se fala da maldade humana, o faz a partir de algo que assim a revele e universalize, aqui, o popular livro de São Cipriano, já traduzido para várias línguas. O longa-metragem resgata parte de seus rituais e invocações e brinca com sua origem, fazendo-o surgir de modo psicográfico. São elementos finos, aprofundados na mística em torno de algo já conhecido.

Aragão vai além da lenda e personaliza a trama, adequando-a à realidade brasileira ao unir de um mesmo lado portugueses, espanhóis e a igreja. Do outro, negros, indígenas e a arte personificada em um trupe mambembe e seus espetáculos de horror. A despeito da mensagem, há uma certa obviedade naquilo que se constrói o que nem sempre é positivo, uma vez que metáforas ganham força na discrição. Por outro lado, há espaço para toda a formulação estética de Aragão, um gênio quando se trata de reconstrução gráfica do medo.

O Cemitério das Almas Perdidas se distancia do começo da carreira do cineasta em 2008 na opulência da produção. Há mais dinheiro e as locações, figurinos e os próprios efeitos demonstram isso, mas há uma característica artesanal muito própria de Aragão, aquela que o diferencia de tantos outros no gênero. Monstros, pesadelos, sangue e cenários fantásticos são elaborados com muita dedicação e atenção aos mínimos detalhes.

O Cemitério das Almas Perdidas (2020)

Impressionante visualmente, porém, o filme se perde em meio a tantos elementos. Primeiro, tem dificuldade para transitar naturalmente entre a realidade e o onírico, o que compromete a tensão do filme. Segundo, por tentar abarcar muitos universos diferentes: monstros da ficção e da vida real, relações metafísicas, canibais, zumbis, artistas, carolas e os colonizadores. Muitas histórias que não encontram lugar naqueles 95 minutos de duração.

Porém, há interesse na mensagem que O Cemitério das Almas Perdidas traz e seu cinema de horror visual inspirado nos primórdios do gênero. Como um bom exemplar, é alegórico e gráfico, pena que se empolga e quer abarcar coisas demais. Sabemos que para falar de colonização e Brasil é preciso tocar em vários pontos mesmo, mas nem todos precisam estar ao mesmo tempo no mesmo lugar.

Um grande momento
Um show especial para crentes.

[10º Cinefantasy]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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