Crítica | Outras metragens

O Fantasma da Ópera

Aquele que cria

(O Fantasma da Ópera, BRA, 2026)
Nota  
  • Gênero: Experimental
  • Direção: Júlio Bressane, Rodrigo Lima
  • Roteiro: Júlio Bressane, Rodrigo Lima
  • Duração: 26 minutos

Existe um corpo que não aparece. Ele se move pelos cantos, por trás do quadro, pelo som antes da imagem. O Fantasma da Ópera, de Júlio Bressane e Rodrigo Lima, nasce de um gesto de recusa. Não é um filme interessado em encenação, personagens ou drama clássico. É um curta que olha para trás da câmera e encontra ali o verdadeiro teatro. O cinema como bastidor. O autor como presença que nunca se resolve em figura.

O título mostra a herança de O Fantasma da Ópera, romance de Gaston Leroux publicado em 1910 que conta a história de um homem desfigurado dos subterrâneos de um teatro parisiense, apaixonado por Christine Daaé, jovem cantora que ele forma, protege e observa à distância. A peça ganhou inúmeras adaptações, mas se cristalizou no imaginário popular com o musical de Andrew Lloyd Webber, cuja canção principal transformou o fantasma quase em mito pop e desejo proibido. Nunca deixou de ser uma figura que existe mais pelo eco do que pela presença física.

O Fantasma da Ópera não adapta a história e, fora o título, não cita o enredo de forma direta. Ele a desloca. Aqui, o fantasma não canta, não seduz atrizes, não ocupa o centro do palco. Ele observa. Ele constrói. Ele sai de trás da câmera, entra em campo, no comentário, na palavra lançada como quem monta uma cena sem precisar mostrá-la inteira. O curta é um filme sobre fazer um filme. E, mais do que isso, sobre quem faz e escolhe não aparecer.

Os personagens não são os atores e o interesse está nos corpos que atravessam o set, nas vozes que surgem fora do quadro, nos gestos de quem organiza, pensa, sugere, interrompe. O cinema acontece nesse espaço intermediário, onde o filme ainda não é filme, mas já carrega um mundo. Bressane é o processo e está ali como quem escreve um poema sem palavras. O resultado importa menos do que o movimento.

A comparação com o fantasma se impõe. Como o personagem de Leroux, Bressane é alguém apaixonado por suas criações, por seus personagens, por seus filmes, mas condenado a viver num lugar limítrofe. Ele ama, observa, constrói personas, mas não habita essas vidas. O autor permanece fora de cena, consciente de que seu desejo é sempre deslocado. Quando o cinema está entre a realização plena e a tensão permanente entre ver e não viver.

No musical, o fantasma existe como voz que invade, seduz, domina o imaginário. Ele se impõe mesmo quando não está em cena. Bressane funciona de modo semelhante. Sua presença no cinema brasileiro é também fantasmagórica. Ele influencia, contamina, cria um campo de força estético e ético que molda olhares, mas permanece à margem dos centros de legitimação. Um autor que constrói sem pedir permissão.

É um autor-construtor de palavras e imagens, criador de um cinema que pensa, fala, escreve. Tem na  palavra matéria de cena, ferramenta de montagem e gesto político. O curta, porém, busca outra dimensão. Em gestos e posturas, nas reações e interação, não quer se explicar. Apenas ser.

O Fantasma da Ópera é, no fim, uma declaração. O cinema não está na representação, nem no espetáculo, nem no ator iluminado. Ele vive nos subterrâneos, nos calabouços do processo, no amor impossível entre o autor e aquilo que  cria. Um amor que nunca se consuma, mas que insiste. Como toda obra que importa.

Um grande momento
Bressane interpreta

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. É votante internacional do Globo de Ouro e faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Critics Choice Association, OFCS – Online Film Critics Society e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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