Críticas

O Homem Invisível

(The Invisible Man, AUT/EUA, 2020)
Suspense
Direção: Leigh Whannell
Elenco: Elisabeth Moss, Oliver Jackson-Cohen, Aldis Hodge, Michael Dorman, Storm Reid, Amali Golden, Harriet Dyer, Sam Smith
Roteiro: Leigh Whannell
Duração: 110 min.
Nota: 4 ★★★★☆☆☆☆☆☆

Outro dia desses, aqui no site estava sendo publicada a crítica de Doolittle, que falava sobre o filme trazer a sensação de se estar novamente assistindo aos filmes de fantasia e aventura da infância – no caso, aqueles exibidos na Sessão da Tarde nos anos 1970/80. Sem entrar no mérito da qualidade daquele título, porque isso não é o que interessa aqui, mas essa sensação de voltar àquele passado.

A ideia por trás de O Homem Invisível faz parte de um projeto maior da Universal Pictures: o de resgatar seus monstros clássicos dos anos 1930, como Drácula, Frankenstein, Lobisomem e o já lançado A Múmia. Aqui, como deixa óbvio o título, traz aquele inspirado no livro homônimo de H. G. Wells. O sentimento quase nostálgico de retorno, portanto, era não só esperado, como desejado.

Porém, ao sair da sala, não há resquício daquilo que James Whale fez em 1933. Ao contrário dos monstros clássicos ou da Sessão da Tarde, não sobra nada da sensação esperada. É como sair de um thriller dos anos 1990. Para piorar, ainda não é como ter visto um Cabo do Medo (1991), que, por acaso, já tem o final contaminado pelo cinema da época; é como se o filme fosse um primo de A Mão que Balança o Berço (1992), Revelação (1992), Dormindo com o Inimigo (1991) ou tantos outros. Pior do que isso, o que fica por um tempo vai transformando o longa em algo ainda mais genérico e ultrapassado.

Completamente baseado na construção do gaslighting, O Homem Invisível conta a história de Cecilia, uma mulher que sofria violência doméstica, cárcere privado e repetidos abusos por parte do marido. Com a ajuda de sua irmã, ela consegue fugir de casa, mas vive em estado de medo constante. Mesmo sabendo que algo está errado após a notícia da morte de seu algoz, ninguém acredita nela.

Dirigido por Leigh Whannell, o longa até começa bem e faz um interessante jogo psicológico, colocando em dúvida a sanidade da protagonista, mas entregando ao espectador informações que são desconexas com aquilo que é dado de pronto. Na incerteza, há uma construção eficiente do suspense, e um ritmo equilibrado, bem sustentado pela atriz Elisabeth Moss, em mais uma ótima atuação.

As reações da personagem são coerentes com as de alguém que sofreu um trauma recente e está passando por algum transtorno psicológico, como síndrome do pânico: o esforço para sair de casa, a contenção nas pequenas alegrias, o medo de qualquer coisa. Após um tempo, quando tudo se estabelece, o seu desespero para ser ouvida se sobressai. A dupla Whannell e Moss sabe que precisa deixar claros cada um desses sinais para manter a trama no caminho.

Ainda que tivesse uma trilha enxerida aqui ou um exagero ali, tudo estava indo bem. Até a primeira reviravolta. Frágil e tola, ela vem para ameaçar o mistério e justificar a explosão de violência. Lá estão os anos 1990 de novo. Depois de tanto tempo, depois de tanto esforço para construir um suspense psicológico interessante, tudo vira tapa, soco, tiro e sangue para todo lado. E não é o primeiro título inspirado na mesma obra de Wells que aposta nisso.

Veja bem, não que haja problemas em filmes que são elaborados para serem graficamente violentos. Assim como não é um problema no cinema onde a violência tem um papel narrativo. O que incomoda é o descambar para esse tipo de ação em filmes que estavam trilhando um outro caminho. O que se lê em O Homem Invisível é: o meu suspense não é suficientemente bom, preciso de sangue. E, desculpe, isso é muito anos 1990 e se não era aceitável lá, imagine agora.

O grande questão é o porquê desse voltar a uma coisa que já não tem mais sentido, que já se perdeu, ficou ultrapassada. Quando se vê esse movimento no mundo, como um todo, com vários retrocessos incompreensíveis, fica a pergunta se é algo natural que a cultura pop também se sinta compelida a fazer o mesmo. Será que percebe no público alguma ansiedade por esse tipo de material?

Ao encontrar um passado muito menos interessante do que aquele que buscava homenagear, O Homem Invisível se torna um filme problemático e bastante contraditório. Todo o trabalhar do gaslighting e da libertação feminina é destruído pela violência gráfica e gratuita justamente contra a mulher. E não é uma questão de contexto, é uma questão de apostar em estéticas e narrativas velhas e ultrapassadas, usadas por quem não confia no seu material, não se garante.

Um Grande Momento:
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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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