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O Homem Que Vendeu Sua Pele

Homem-arte

(L'homme qui avait vendu sa peau, TUN, FRA, BEL, ALE, SWE, TUR , 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Kaouther Ben Hania
  • Roteiro: Kaouther Ben Hania
  • Elenco: Yahya Mahayni, Dea Liane, Koen De Bouw, Monica Bellucci, Saad Lostan, Darina Al Joundi, Jan Dahdoh
  • Duração: 104 minutos

Kaouther Ben Hania tem apenas 44 anos e muita coisa a dizer. Seu filme anterior, a estreia em longas de ficção A Bela e os Cães já surtiu efeito por onde passou, seja em Cannes ou na própria Tunísia natal, promovendo a amplitude de sua voz e reverberando seus contundentes argumentos sociais. Indicada ao Oscar de filme internacional esse ano com O Homem que Vendeu sua Pele, que finalmente estreia nos cinemas, sua potência discursiva é colocada à prova, e sua explanação não apenas merece ser ouvida, como sua contundência ao promover planos e debates é perceptível – agora lhe falta a coragem para podar.

Hania acumula intenções em seu novo filme, praticamente todas valendo a pena serem difundidas, explicitadas e debatidas; o problema é que elas estão juntas, misturadas e muitas vezes atropeladas, sem abrir espaço para que tudo seja exposto até seu contexto fazer sentido no acúmulo, e justificar sua presença em um roteiro que deveria amplificar sua voz, e não abafá-la com excessos. De sua própria autoria, inspirado por um evento real, o escrito é representativo de sua geografia, de seu tempo e de sua sensibilidade, mas empregar todas as questões vigentes possíveis em um mesmo projeto tende a pesar o resultado e comprometer o cômputo final.

O Homem Que Vendeu Sua Pele
Foto: Divulgação

De muitas formas, O Homem que Vendeu sua Pele se comunica com The Square, que também concorreu ao mesmo Oscar recentemente e ganhou a Palma de Ouro naquele ano na Croisette. A discussão sobre os limites do processo artístico, o olhar critico para uma visão moderna sobre o que é a arte hoje, estão impregnadas nas duas obras, mas aqui sai o cinismo e a provocação irônica sobre o assunto e entra uma visão mais focada no humano, sobre os processos de exploração que (des)unem dominados e dominantes, na geografia mundial. São elementos demais para desenvolver em 1 h e 40, e nem são os únicos.

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O protagonista, Sam Ali (vivido por um quase sósia do diretor Caetano Gotardo, Yahya Mahayni), inicia sua jornada por amor – quase sempre é, né? Ao perder a mulher por quem é apaixonado, que se casa e migra para a Bélgica, a saída dele é ceder ao “canto de uma sereia”, que como esperado, guarda mais armadilhas que júbilos. Ao olhar pra todas as molas sociais que o filme ejeta, com um elemento romântico na linha de frente para coordenar, a impressão de que tudo poderia dar muito mais errado do que acaba dando, ao final. O já citado The Square tinha a seu favor a unidade com que sua orquestra era regida; aqui, prevalece a visão apurada esteticamente de sua diretora.

O Homem Que Vendeu Sua Pele
Foto: Divulgação

Hania se salva porque seu rigor estético é apurado e constantemente se aplica em cena, o que promove momentos de acertos inspirados. Como se trata de uma produção que envolve o mundo da arte moderna, com cenários em museus e instalações, as escolhas da diretora não poderiam representar mais sua atmosfera, ainda que muitas vezes eles sigam soltos de representação. A trama-base, a respeito da união de seus protagonistas, acaba por não interessar muito, porque sua autora compõe sua reflexão de momentos onde a imagem fala muito mais alto que seu roteiro, e compensa a ausência de potência narrativa.

Elaborando seus quadros, traduzindo visualmente com arrojo e elegância, Kaouther Ben Hania transforma O Homem que Vendeu sua Pele em um objeto estranho, que entende a ênfase da imagem sobre a mensagem, como convém ao seu tema, mas que paralelo a isso assinou um texto que acumula muitas imaginações, talvez livres demais para se deixar de notar. O resultado é uma experiência rica para os olhos, que se intensifica por tratar sua verve pictórica com cuidado, mas que não obtém o mesmo zelo com sua compreensão narrativa, embolotada por motivações genuínas porém excessivas; um projeto de risco, como uma tela abstrata.

Um grande momento
Sam e a luzes

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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