Crítica | Festival

O Dia da Posse

Sonhos refletidos no espelho

(O Dia da Posse, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: .
  • Direção: Allan Soares
  • Roteiro: Allan Ribeiro, Douglas Soares
  • Elenco: Brendo Washington
  • Duração: 70 minutos

Em algum momento do caminho, nos últimos 6 ou 7 anos, o Brasil construiu uma nova geração de jovens nascidos da esperança, de uma existência fincada na oportunidade e no avanço das políticas públicas, e arrancou essa ideia da geração Z nacional. Quem nasceu de 2000 pra cá, viveu de tudo um pouco: a aceleração da economia, a inclusão de um olhar mais humano aos menos favorecidos além de uma expectativa concreta de mudança de cenário, uma injeção de ânimo em uma população que cresceu à mercê das realizações governamentais. O Dia da Posse, novo filme de Allan Ribeiro, é uma obra que fala sobre tantas quimeras, mas que observa na queda de um país a matéria ainda viva para o ressurgimento do sonho.

Premiado por Esse Amor que nos Consome e Mais do que eu Possa me Reconhecer, Ribeiro nunca disfarçou o apreço pelo particular, e por fazer do seu privado um espelho cotidiano que identificasse muito além das suas cercanias. A lupa vai longe demais dessa vez, ao permitir que sua vida pandêmica fosse auto retratada e encontrasse nessa relação sentimental, uma fatia de um país que emergiu do abandono, vislumbrou conquistas e agora mantém viva uma chama de perseverança em relação ao próprio futuro. Sem perder a intimidade, o diretor conquista por ir além do ambiente doméstico enclausurado para refletir sobre um país que ainda exige as oportunidades oferecidas, e que não se deixará levar pelo horror do hoje.

Allan e Brendo estão em cena, mas ainda que a naturalidade de ambos esteja exposta, seus corpos, sua pele sem retoques, sua afeição e sua parceria, é o segundo que fala, em nome de um país que viu um recente auge, e se recusa a acatar as camadas mais baixas do nosso tempo. Brendo abraça sua própria história e encampa seus desejos, de ontem, de hoje e de amanhã. Através de sua voz, das suas memórias e das projeções, vemos um país que não abandona sua aura juvenil e nega qualquer tipo de mordaça; o tempo de Brendo é hoje, como diria Paulinho da Viola, mas ele não nega sua origem e tem sede de um futuro que ele mesmo se arvora em construir.

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Ao longo de 1 h e 10, o protagonista rememora um passado de inocência (“eu não sabia que eu era pobre”) e antevê um caminho de propostas que serão cumpridas, o mundo queira ou não. Vemos, através dos seus olhos, a pureza de ser firme em seus ideais sem se deixar corromper – o menino que tem a certeza que será Presidente da República Federativa do Brasil é o mesmo que também vencerá a edição 2030 do BBB. Ao longo de seus relatos, vemos um país que tem a reconstituição no sangue e que se regenera sempre sedento. Sem esconder o terror dos últimos anos pandêmicos, ou mesmo o pior governo da História do país, o clima não é de desesperança, mas da certeza de uma regeneração, ainda que contaminada pelo luto de perder o que tão recentemente havia conquistado. Porque, acima de tudo, em sua intimidade, Brendo não deixa escapar doçura por trás da inteligência e da firmeza; Allan não deixa escapar o embevecimento por quem está filmando, pelo homem que a câmera capta.

Ao contrário de documentários nacionais recentes que se deixam perder pela paixão por um personagem, o autor Ribeiro não perde a mão porque Brendo é, por si só, um microcosmos vivo de um tempo. Existe essa consciência na produção, da síntese que ele representa, e por isso o filme tenta não fugir do jogo de cena, mesmo que a realidade esteja sendo investigada; “é filme, não é real”, diz o diretor para o seu ator, e essa quebra de expectativa coloca Brendo fora da obrigação de se desnudar. O que vemos é a criança que precisava esperar uma rolinha bater em sua janela e cair já sem vida para poder comer carne, mas também é o homem inteligente que cita O Som ao Redor, aponta o elitismo do cinema de Allan Ribeiro (uma cena simplesmente genial) e que deixa sua impaciência aflorar diante do artifício – ou seja, carne e osso.

O próprio Ribeiro monta seu filme, que contém cortes precisos para dinamizar a produção sem deixar de provocar o espectador com narrativas suspensas e recortes que retiram o véu documental para apresentar a ficção por trás de cada quadro, e repaginar todo o discurso visto até então. É quando a produção começa a relacionar os Brendons diferentes em cena, e quando a montagem os embaralha e promove a dissolução das nossas certezas, O Dia da Posse ainda cresce e eleva do naturalismo e do emocional para o campo da metalinguagem, dando orgulho a Eduardo Coutinho e fazendo da arena política um campo de fabulação.

O Dia da Posse apresenta um Allan Ribeiro imerso na contemporaneidade sem perder sua voz interior, nos apresentando um personagem caro a ele, e um outro caro a todo espectador – Brendo é uma espécie de Brasil que nasceu do sonho de voar, o que no caso dele também funciona na literalidade. Se desde cedo, o personagem central aqui aprendeu que se devora também os sonhos para poder galgar degraus em direção à realização, Ribeiro mostra que esse país arrasado de hoje ainda é capaz de uma saída, mesmo dando passos atrás. O futuro estará nas mãos da arte, mas cada um dos Brendons espalhados por aí é um refúgio de revolução e motivação particulares pra continuar querendo mais.

Um grande momento
A morte da rolinha

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Cinema]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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