Crítica | Streaming

O Hospital

Perdido em si mesmo

(杏林醫院, TWN, 2020)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: Chu Chia-Lin
  • Roteiro: Chu Chia-Lin
  • Elenco: Hsu Li-chi, Lei Hung, Samuel Ku, Lin Po-Hung, Tai-Bo, Zhu Zhi-Ying
  • Duração: 89 minutos

O filme de terror chinês O Hospital, disponível na Netflix, não traz uma trama exatamente inédita. O que veremos na tela vai ser algo várias vezes abordado, em um ambiente batido, com motivações para lá de conhecidas e partindo das mesma premissa. O terror em hospitais e asilos abandonados costuma não fugir de uma estrutura básica: um prédio com várias histórias de traumas e mortes, e um grupo que anos depois volta para explorar o local. Pela quantidade de possibilidades gráficas, geralmente há uma certa acomodação, e pouca dedicação a algo que vá além do visual.

Porém, não se pode negar que essa variedade de roupagens tenha lá suas curiosidades e até surjam, aqui e ali, novas abordagens. Aqui, especificamente, há um certo atrativo no modo como Chu Chia-Lin concebe seu universo sobrenatural. A trama do hospital Xinglin segue a linha da escola do naturalismo taoísta, o que já o diferencia do padrão cristão tradicionalmente visto na maioria dos títulos, e é dividida em tempos que se misturam e se distinguem. Embora isso já não seja tão inovador, a confusão entre épocas compensa algumas outras questões.

O Hospital

Há muito da estética do horror oriental, mas a plasticidade do horror ocidental, popularizada por narrativas seriadas, também está presente. A combinação é funcional, se apresenta bem na contextualização, em um prólogo rápido por matérias de jornal, e não faz feio na criação dos sustos. Porém, é no transitar entre realidades que se destaca por estabelecer cores e intensidades que refletem mais do que uma determinação temporal.

Enquanto tem seus pontos positivos, O Hospital tem também seus problemas, principalmente em atuações que não parecem nunca alcançar o ponto de crença nos papéis que têm nas mãos. Não que o roteiro seja complexo e precise de algo muito elaborado, mas o que se vê no longa, talvez por uma direção menos enfática de atores, é um distanciamento bem acentuado, como se a interpretação estivesse sempre tateando sem saber onde deveria chegar.

O Hospital

Essa irregularidade faz com que boa parte da história, principalmente aquela relacionada à tradição do yin-yang, se perca, deixando toda a atenção à sucessão de sustos que independem de rituais de exorcismo, reencarnação, luto e dor. Outra parte dedica-se à construção de tramas paralelas frágeis, que justifiquem o encontro forçado daquelas quatro pessoas. Havia material, mas tudo é muito superficial e seria tão mais interessante se o filme fosse mais do que as tradicionais pegadinhas que estão por trás de filmes que envolvam ambientes assombrados.

Assim, O Hospital vai se equilibrando, entre um jogo visual curioso, que, em meio a elementos clássicos e funcionais do horror, leva o espectador a um outro lugar de interação com a obra; e uma certa imperícia que faz com que a experiência seja limitada, enfraquecendo, inclusive, suas possibilidades metafóricas. É interessante por trazer elementos novos, ou pelo menos apresentar variações dos mesmos elementos.

Um grande momento
As irmãs

Ver “O Hospital” na Netflix

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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