Crítica | Festival

Desterro

Entre o literal e a alegoria

(Desterro, BRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Maria Clara Escobar
  • Roteiro: Maria Clara Escobar
  • Elenco: Carla Kinzo, Otto Jr., Rômulo Braga, David Lobo, Sara Antunes, Ricardo Calil, Bárbara Colen, Juliana Carneiro da Cunha, Hu Xiau Den, Julia Katharine, Clarissa Kiste, Bruno Kott, Maria José Novais Oliveira, Grace Passô, Tavinho Teixeira, Isabél Zuaa
  • Duração: 122 minutos

Desprender-se. Cortar as raízes. Deixar para trás aquilo que se definiu como sua terra. Uma terra formatada por uma sociedade moldada por séculos e séculos de costumes direcionados. Bela, recatada e do lar. Família, tradição e propriedade. “Cem homens podem formar um acampamento, mas é preciso uma mulher para fazer um lar”. “E foram felizes para sempre”. Em Desterro, Laura e Israel vivem uma relação que já é a sombra de um passado, o resquício do que um dia existiu. Não precisa muito tempo acompanhando a conversa do casal para perceber. Eles já não reconhecem gestos românticos e zombam deles e metaforicamente determinam sua postura diante do fim.

Em seu primeiro longa de ficção, Maria Clara Escobar parte da estrutura rachada para encontrar o motivo para a ruptura. Mais do que a relação fracassada, seus dois personagens não mais se reconhecem e, embora Israel tenha um papel de grande importância, é a presença ou ausência de Laura que domina a tela. Os conflitos comuns às mulheres em uma sociedade opressora que definem como uma esposa e uma mãe devem se sentir ou se comportar, fazem parte dessa jornada nada convencional em busca do que não existe.

Desterro

Com divisões bem claras, cada uma delas com funções específicas na construção da realidade a ser abandonada e na concretização de uma persona, Escobar vai  trilhando seu caminho com pausas e interrupções inesperadas. Diálogos tensos e carregados de dor e angústia são traduzidas em imagens, jornadas similares são declamadas por companheiras de viagem. Embora por vezes o jogo imagético esbarre na redundância, a experiência é potente e inquieta o espectador, tirando-o de seu lugar de conforto.

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Protagonizado por Carla Kinzo e Otto Jr., o elenco de Desterro reúne grandes nomes do cinema independente brasileiro, como Rômulo Braga, Bárbara Colen, Grace Passô, Isabél Zuaa, Tavinho Teixeira e Julia Katharine. Cada um deles tem o seu papel nessa trama marcada por passagens, pela impermanência e pela impossibilidade da promessa do retorno. Em choques improváveis, o reencontro traz a lembrança, mas descarta o futuro; a necessidade obriga o contato e a vontade de fuga; o acaso, a parceria e o fim. Se nada é evidente e está claro, o mais interessante é mergulhar no que está por trás do explícito.

Desterro

O jogo do óbvio e do obscuro, que mistura o cênico tradicional com devaneios estéticos de Desterro demonstra aquilo que está sendo visto pode não ser exatamente tão literal e tem leituras que transcendem o óbvio. O corpo como dado — e a sua representação é tão forte quando se fala do corpo da mulher — é muito mais do que aquele que encerra o filme no lugar ermo esperando o resgate. 

Toda a viagem de Laura é uma viagem de ruptura com o patriarcado, com a estrutura carcomida de um mundo adoecido e que insiste em determinar e aprisionar. Seu destino metaforiza a transformação. É a libertação, o deixar para trás a terra cantada por suas colegas de jornada e o começo de um novo caminho. Que ela arda em chamas.

Um grande momento
A carta

[Cinélatino – 33e Rencontres de Toulouse]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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