(El pacto de Adriana, CHL, 2017)
Documentário
Direção: Lissette Orozco
Roteiro: Lissette Orozco
Duração: 96 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

A (re)construção de narrativas a partir de memórias familiares tem se firmado como tendência no universo da produção documental. Antigas imagens de VHS, fotografias e gravações sonoras têm servido para resgatar personagens e histórias que podem ater-se ao pessoal e, algumas vezes, transcender a particularidade onde foram constituídas.

É também com base em arquivos pessoais que o documentário O Pacto de Adriana, de Lisette Orozco, começa a trilhar o seu caminho em busca da descoberta de Adriana Rivas, tia da diretora, e acusada de ser uma das comandantes do DINA, a agência de inteligência na ditadura de Augusto Pinochet, que sequestrou, matou e deixou milhares de desaparecidos no Chile.

A força do longa-metragem está justamente na construção e na desconstrução desta personagem, no modo como aquela que é exposta passa de um extremo ao outro, afetando também quem conta a história, a própria diretora. O mistério em torno da figura se transforma em uma verdade que difere daquela assumida no ponto de partida, e é no inesperado desta inversão – algo também comum em documentários – que está a triste beleza da obra.

Estruturalmente caseiro, O Pacto de Adriana é o resultado de uma colagem feita com resquícios físicos de um passado e, graças aos novos meios de comunicação, imagens recém construídas de um presente. A diretora tem a exata dimensão do material que tem em mãos e o usa a seu favor na configuração de um distanciamento que transcende o espaço físico. É na ausência, ou na virtualidade da presença, que se torna possível enxergar o todo.

Paralelamente a isso, a imersão, de maneira menos pessoal, na história do Chile, faz com que se tenha a percepção de o quão longe aquelas memórias tão particulares podem chegar e a quem podem atingir. Orozco entrega sua história familiar a uma realidade indesejada e tão exterior quanto interior. Para isso, recorre a entrevistas com especialistas ou antigos membros da DISA e imagens de arquivo, reveladas pouco a pouco para expor o que não se percebe de pronto.

Mesmo que sem intenção de direcionar ou forçar conclusões, a diretora empresta sua percepção e sentimento à exposição de uma chaga nunca cicatrizada do Chile. A dor, que é dela, mas também é de todos, está ali em várias nuances, com considerações próprias e alheias, para sempre.

Um Grande Momento:
Mostrando o filme à mãe.

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