(Música para Quando as Luzes se Apagam, BRA, 2017)
Drama
Direção: Ismael Caneppele
Elenco: Emelyn Fischer, Julia Lemmentz
Roteiro: Ismael Caneppele, Germano de Oliveira
Duração: 71 min.
Nota: 9 ★★★★★★★★★☆

Na abertura, a beira de um rio à noite. Escuridão vazada por um fogueira ao longe, ilhada. Pela margem e pelo rio, vaga um corpo indo em direção à luz. Uma luz artificial que ilumina uma paisagem natural. Uma luz provocada, que cria uma beleza nova no meio do intocado. O corpo se desnuda para a fogueira, e ela ilumina o torso não-identificado pela distância. O olho do espectador não vê, mas a luz artificial sim. Todos nós existimos em todas as coisas, não é isso? O que o olho humano vê também é visto de volta pelas coisas, e, por isso, somos todas as coisas. A fogueira, as pedras, a água, o rio, o céu, a escuridão. Tudo isso somos nós. E assim abre Música para Quando as Luzes se Apagam, hipnótico filme de Ismael Caneppele, adaptado de seu próprio livro. Ou não. Caneppele, em seu processo de criação, adaptou seu livro de forma abstrata, e de maneira não-naturalista filmou o seu roteiro. O resultado é um bicho de cinema verdadeiro.

O filme “conta a história” de uma jovem que sonha com um nome: Bernardo. Ela quer ser Bernardo ou Bernardo é só um personagem, a que vestimos como sempre fazemos no nosso dia a dia? Ela não decide, não quer decidir, não precisa decidir. Ela existe, se move, se relaciona com outros seres, uns iguais a ela e outros não, não precisa de nada mais para ser. E ela é. De estrutura fragmentada e errática, o filme de Caneppele não quer responder mas acaba respondendo das maneiras mais sutis e poéticas possíveis. Mas grita liberdade estética, narrativa, ambição e talvez pretensão; é o olho do outro que vai transformar essa realização em filme ou em algo ainda não criado. Uma massa artística que bebe em tantos conceitos e escolas para justamente poder ser algo completamente fresco e jovem, como ela. Emelyn. Na sua casa no sul da país, chega uma atriz/autora, que tenta tirar dela reflexões sobre todas as coisas que a formam e rodeiam, e aos poucos isso se transforma em algo mais concreto do que abstrato e as vias vão se abrindo por entre os caminhos documentais e ficcionais. Ou não.

Embebido de um olhar que talvez Harmony Korine teria orgulho em capturar, Caneppele se embrenha pela vida de Emelyn para nos aproximar da interrogação que é uma intersecção a ela. E quanto mais o autor mergulha em sua rotina, menos complexa essa vida se mostra. Emelyn vive a adolescência da maneira mais pura, ampla e cotidiana possível, para alguém que orbita num universo de cidade do interior. Sua relação com a natureza, por exemplo, é muito mais direta e sensorial do que a de um típico adolescente urbano; ela se expressa também através da natureza, para evidenciar o natural em si. O quão ela é uma expressão plus de todo aquele material vegetal, mineral e aquático a sua volta. E, como um adolescente qualquer, Emelyn tem a intensidade correndo nas veias, e nas rodas do skate. Ela é venal, e se relaciona com outros adolescentes todos tão imersos em suas intensidades particulares e compartilhadas. Inclusive sexualmente falando; Emelyn ama uma outra figura, feminina como seu corpo também o é. Mas se embrenha numa aventura motociclista com um corpo nu masculino, adolescente como ela. E, adquirindo e mostrando o humano em si, sofre como qualquer outro quando se vê apartada no desejo e na entrega.

Impressiona Caneppele ser estreante em longas, porque ele emoldura sua narrativa de maneira onírica e sensorial, mas completamente cinematográfica. Talvez uma proximidade na produção de Os Famosos e os Duendes da Morte (longa de Esmir Filho baseado em livro dele) o tenha deixado seguro para esse salto no escuro. No fim, seu montador Germano de Oliveira acabou se tornando seu co-roteirista, até porque o material total compreendia em mais de 300 horas filmadas, e para chegar ao resultado exposto provavelmente muito ou tudo é um trabalho deles dois, artística e emocionalmente. Com certeza duas cabeças que convergiram para decidir o que apresentar e como apresentar, e o resultado é esse longa que já nasce híbrido em sua gênese e que não tinha como ser diferente. A favor do filme, temos o jovem Pedro Gossler a cargo de uma fotografia estonteante, que transforma o filme no sonho que provavelmente Caneppele pensou.

Híbrido, e essa história tem uma associação direta com essa expressão. Emelyn e Bernardo são duas figuras complementares, que talvez um dia se fundam de vez, talvez não. A beleza e o mistério que escondem todos os seres que nasceram partidos e, ao mesmo tempo, compostos. Da natureza de seu personagem, seu autor não tinha outra coisa a fazer se não se embrenhar com ele (metaforicamente representado pela personagem de Julia Lemmertz) e sair de lá com um material tão híbrido quanto, uma bela obra de construção particular e jamais permanente, o olho do furacão em pessoa e obra. Na tela, as imagens que impressionam se amontoam nesse compêndio sobre a mutação que todos nós somos, e vão desde o belo plano sequência da fuga de casa na madrugada, até os encontros do trio de amantes aventureiros, passando pelo passeio de moto que termina em sombras nuas. A simbiose que Emelyn e Caneppele experimentam e acabam por conseguir finalizar está representada na belíssima cena final, quando tantas coisas viram uma só e continuam se observando em separado também. Todos somos todas as coisas, enfim.

Um Grande Momento:
A abertura, com o mergulho inicial no jogo de luz, sombras, atração e significação entre Emelyn e o próprio filme.

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