Crítica | Streaming

O Pai Que Move Montanhas

Controle soterrado

(Tata muta muntii, ROM, SWE, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Daniel Sandu
  • Roteiro: Christian Routh, Daniel Sandu
  • Elenco: Adrian Titieni, Elena Purea, Judith State, Valeriu Andriuta, Virgil Aioanei, Radu Botar, Petronela Grigorescu, Tudor Smoleanu, Bogdan Nechifor, Cristian Bota
  • Duração: 108 minutos

Durante boa parte da duração de O Pai que Move Montanhas, estreia de hoje da Netflix, nos pegamos pensando como a Romênia, um dos polos mais densos e criativos narrativamente há pelo menos 15 anos, conseguiu produzir algo com a textura e a vibração de um telefilme norte americano dos anos 1980. Com toda a cara daqueles “baseado em fatos reais” que empestearam a sessão Supercine de 30 primaveras atrás, há um verniz necessário para tornar minimamente profundo algo que é básico: a busca de um pai pelo filho desaparecido em uma montanha nevada. Inseridos silêncios em interpretações, uma secura de relações e uma estrutura familiar acrescida de desfuncionalidade, a primeira metade do filme funciona para o público médio que não estranhar a ausência de uma trilha sonora estridente onde geralmente tem.

O filme é realmente baseado em um caso verídico e seu diretor e roteirista, Daniel Sandu, está no segundo longa metragem. Aqui é produzido por um expoente do cinema romeno, Cristian Mungiu (Palma de Ouro por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias), que acaba por um construir um lastro de relevância a uma situação dramaticamente afundada em clichês, que não costumam serem percebidos no cinema produzido naquele país. É exatamente essa postura diante da narrativa que diferencia o cinema da Romênia hoje de praticamente todos os outros, promovendo uma compreensão dos fatos cujo naturalismo é parte essencial da jornada contada, geralmente atravessada por périplos de resolução angustiante; aqui não é diferente, mas sua dramaturgia é proveniente do melodrama.

A partir da segunda parte do filme, no entanto, o caminho do filme começa a clarear na direção do que compreendemos ser caro à dramaturgia romena atual. Mircea Jianu, o tal pai do título em português, é maior do que a narrativa, maior que seu drama pessoal. Uma cena deixa claro a passagem narrativa do filme, quando sua ex-esposa narra um episódio da vida do filho agora desaparecido na infância, e a transformação de Mircea em um homem capaz de mover montanhas. Provedor como um leão e desacostumado a negativas, Mircea – como o filme paulatinamente apresenta – faz o que quer, impõe suas vontades ao seu entorno e não se dobra mesmo diante do imponderável; sua postura o levou a ser quem ele é hoje, à vontade com os tentáculos do poder que ele mesmo alimenta e usufrui.

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© Netflix

Ao longo da produção, limites são constantemente apresentados à esse protagonista, que responde aos desafios sempre com enfrentamento. Vai além do destemor e da perseverança, Mircea não aceita qualquer outra coisa que não a sua própria decisão, e a cada banda que os acontecimentos dão nele mesmo, sua resposta é contra atacar com um cinto ainda mais apertado no próximo lance, deixando pouco espaço respirável para quem o rodeia. Se trata, portanto, de alguém que deve ter crescido com muito pouco na vida, e agora lida com as circunstância visando sempre o máximo em controle, e se incontrolável se tornarem os eventos, não tem problema, um novo desafio ele se auto impõe, beirando sempre os limites da compreensão, e esgotando com frequência a paciência de quem o cerca.

Uma outra cena capital é apresentada em O Pai que Move Montanhas, e mais uma vez se refere a Paula, ex-mulher do protagonista. No auge do desespero, ela acusa a namorada do filho pelo acontecido, agredindo a mãe da moça. Nesse momento, percebemos que por mais que houvesse uma diferença irreconciliável que tenha levado esse casal à separação, ambos se parecem mais do que gostariam de admitir, em sua necessidade de impor a última palavra em determinado assunto. Juntos, criaram um filho que se desenha diferente de ambos, mais sensível e dependente, que saiu em busca de uma liberdade que provavelmente não obteria à sombra dos pais. São dessas miudezas quase imperceptíveis a olho nu que se constrói a grandeza de uma produção fina.

Travestido de produto televisivo descartável, O Pai que Move Montanhas é um retrato amargo sobre a obsessão desmedida de um homem, que leva às últimas consequências sua necessidade de controlar um mundo em constante transformação. Sandu acaba, por fim, demonstrando grande habilidade em enganar positivamente o espectador em nossas afirmações iniciais. Que o palco principal da tragédia familiar que ele monta seja uma região congelada a mercê das intempéries naturais e de um elementos imprevisíveis em mutação diária, parece o ideal para tentar aprisionar as certezas de um homem refém de das suas próprias.

Um grande momento
“Nós os conhecemos da faculdade”

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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