Crítica | Outras metragensGoiânia Mostra Curtas

O Pátio

(O Pátio, BRA, 1959)
Experimental
Direção: Glauber Rocha
Elenco: Helena Ignez, Solon Barreto
Roteiro: Glauber Rocha
Duração: 17 min.
Nota: 7 ★★★★★★★☆☆☆

Dois corpos deitados em um chão quadriculado. A cena do curta-metragem O Pátio, primeiro filme dirigido por Glauber Rocha e estreia de Helena Ignez como atriz nos cinemas lembra um jogo de xadrez que sem ganhadores, como se duas peças, uma de cada lado, estivessem derrubadas, como após um xeque-mate duplo e simultâneo.

A questão da dualidade está espalhada por todo o filme, no branco e preto do pátio que dá nome ao curta, no contraste entre a natureza e o concreto, no mar e na terra, no homem e na mulher. A dança desenvolvida pelos dois seres em cena também expõe esses opostos complementares, que se buscam e se repelem em eterno e infindável círculo de Yin e Yang.

Os corpos se desafiam em emoções contraditórias: enquanto um reage o outro apenas observa, enquanto um se angustia o outro está apático. Os movimentos são de aproximação e distanciamento. O separar e o juntar-se novamente com o toque e a união dos corpos. Dos pés descalços e sapatos largados às mãos dadas há um longo caminho.

A interação com o que circunda aquele ambiente é estabelecida também de maneira dual por Glauber, seja nos cortes rápidos para uma imagem que se repete pontuando as pausas do filme ou no próprio deslocamento daqueles corpos, interagindo com elementos diversos, como um muro ou o cimentado que circunda o tabuleiro. E há uma cadência na volta ao lugar de origem, seguro, que é muito interessante.

O filme, realizado em 1959, na casa de um milionário baiano, é a largada para um cinema que viria sacudir o que era feito até então no audiovisual no Brasil. A produção foi de Lúcia Rocha, que vendeu uma parte de uma propriedade para comprar a câmera, e de Helena Ignez, que o financiou com um prêmio que acabara de ganhar em um concurso chamado Glamour Girl.

Ali em O Pátio já estão a sensibilidade de Glauber na busca pelos planos perfeitos, na liberdade com que captura os corpos e na ousadia da montagem, também está a atuação de Helena, que, acompanhada por Solon Barreto, enxerga no quadriculado daquela chão e na representação de dicotomias não só um espaço a ser ocupado, mas a possibilidade de modificá-lo.

Um Grande Momento:
Mãos dadas.

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[19ª Goiânia Mostra Curtas]

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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