(Destroyer, EUA, 2018)
Ação
Direção: Karyn Kusama
Elenco: Nicole Kidman, Toby Kebbell, Tatiana Maslany, Sebastian Stan, Scoot McNairy, Bradley Whitford, Toby Huss, James Jordan, Beau Knapp
Roteiro: Phil Hay, Matt Manfredi
Duração: 123 min.
Nota: 5 ★★★★★☆☆☆☆☆

Por vezes O Peso do Passado parece um episódio perdido de True Detective. Sua história, inclusive, se assemelha bastante à de um dos melhores momentos da primeira temporada da série de Nic Pizzolatto, em que Rust Cohle (Matthew McConaughey) é forçado a se infiltrar numa gangue de motoqueiros barra pesada e sofre consequências físicas e psicológicas por isso. A policial federal Erin Bell (Nicole Kidman), protagonista desse filme de Karyn Kusama, tem trajetória semelhante: no passado, esteve infiltrada, com seu parceiro e amante (Sebastian Stan), entre criminosos; no presente, emocionalmente destroçada, lida com os efeitos de atos cometidos há muitos anos. Aliás, a própria estrutura da trama em dois tempos sempre em alternância remete à série da HBO.

Mas, na verdade, esse tipo de personagem “quebrado” pela vida, consumido pela culpa e em busca de algum tipo de redenção é bastante recorrente no cinema policial desde ao menos o período do noir. Kusama e os roteiristas Phil Hay e Matt Manfredi dialogam com essa tradição, mais especificamente com a dos filmes com policiais infiltrados que vão, aos poucos, perdendo sua identidade no universo que devem desbaratar: Parceiros da Noite (1980), de William Friedkin, Caçadores de Emoção (1991), de Kathryn Bigelow, Miami Vice (2006), de Michael Mann, e Os Infiltrados (2006), de Martin Scorsese, são alguns excelentes exemplos nesse sentido.

O diálogo com o filme de Bigelow parece mais direto por também se tratar de um exemplar do gênero policial dirigido por uma mulher, algo ainda pouco comum em Hollywood. No entanto, além de O Peso do Passado ter uma protagonista feminina, algo ausente de Caçadores de Emoção, o tom mórbido e os personagens degradados afastam-no da ênfase na ação deste último, filme bem mais solar e com postura consideravelmente positiva diante da vida. O parentesco com os niilistas Parceiros da Noite e True Detective é mesmo mais forte. Especialmente com a série de Pizzolatto. Há apenas duas cenas realmente de ação em O Peso do Passado, ambas muito boas, aliás, envolvendo assaltos a bancos nas diferentes temporalidades em que se desdobra a narrativa.

Vem desse niilismo o maior problema do filme de Kusama. Todo o peso investido na caracterização de Bell (a cena, logo no início, em que ela masturba um homem moribundo para obter uma informação já anuncia esse desejo de carregar nas tintas da degradação dessa mulher); a exagerada composição visual da personagem por Kidman; a constante remissão a uma tragédia do passado guardada como um pequeno segredo pelo roteiro, quando sua natureza é bastante previsível, remetem a uma incômoda autoimportância. É como se O Peso do Passado pedisse atenção o tempo todo para a gravidade da história que conta, sendo que essa, na verdade, não tem grande força dramática.

O epílogo é bastante sintomático disso. Na verdade, talvez até seja um reconhecimento por diretora e roteiristas dessa carência de substância. As escolhas estéticas de Kusama (a câmera lenta que marca os últimos momentos da protagonista em cena) e, principalmente, o truque de roteiro que ressignifica a cena de abertura do filme apontam para uma insuficiência dramatúrgica que leva ao recurso a artifícios como esses.

Um Grande Momento:
O tiroteio no presente.

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