(Da xiang xi di er zuo, CHN, 2018)
Drama
Direção: Bo Hu
Elenco: Yu Zhang, Yuchang Peng, Uvin Wang, Congxi Li
Roteiro: Bo Hu
Duração: 230 min.
Nota: 8 ★★★★★★★★☆☆

É tentador relacionar diretamente a história de Um Elefante Sentado Quieto à vida de seu diretor, o também escritor Hu Bo. Trata-se, afinal, de um filme profundamente melancólico, portador de uma visão niilista da existência, realizado por alguém que cometeu suicídio aos 29 anos de idade, logo após a conclusão da pós-produção. O diretor acompanha quatro pessoas – três jovens e um idoso – em crise com o mundo a sua volta, rejeitados por seus familiares, desencantados e errantes em busca de algum sentido para o que não parece ter nenhum.

Esse acompanhar é literal, já que repetidamente a câmera enquadra as costas dos protagonistas e os segue enquanto caminham por ruas de uma cidade do norte da China. É reforçada assim a identificação de Hu Bo com os dramas dos quatro, com o estado de deslocamento no qual se encontram. E é sintomático que eles estejam quase sempre em movimento, mas, ao mesmo tempo, presos num mesmo lugar, numa existência da qual não conseguem, nem conseguirão nunca, se libertar. A não ser, claro, com a morte – não à toa, há dois suicídios em cena.

Os muitos planos-sequências que compõem Um Elefante Sentado Quieto levam para a estética do filme esse paradoxo entre movimento e paralisia que determina a jornada dos personagens. Ainda que frequentemente estável (não há por parte do diretor qualquer tentativa de construção de imagens urgentes), a câmera quase nunca está parada. Seu deslocamento, seguindo os protagonistas, é constante, mas também lento, como o ritmo do filme. O quarteto e a câmera vagam, a vida e a narrativa se arrastam.

Em dois momentos de Um Elefante Sentado Quieto personagens diferentes discursam sobre a inutilidade da busca por algo novo na vida, da crença de que mudanças geográficas proporcionariam uma felicidade até então não alcançada. “O mundo é asqueroso”, diz o colega de escola de Wei Bu (Yuchang Peng), um dos protagonistas, em determinada cena. Não há para onde fugir. Hu Bo é muito eficiente na construção dessa atmosfera de desolação, desse estado de desespero desmobilizador experimentado pelos personagens que criou – e, provavelmente, por ele próprio.

Muito mais eficiente, aliás, que outros filmes igualmente niilistas, como Babel (2006) e Biutiful (2010), ambos de Alejandro González Iñarritu, Crash – No Limite (2005), de Paul Haggis, e Incêndios (2010), de Denis Villeneuve. A autenticidade alcançada por Hu Bo na representação fílmica desse sentimento, apenas arranhada pelos outros diretores, não deve, claro, ser reduzida à medida extrema tomada pelo primeiro. Ela passa por uma disposição dele para construir as imagens de Um Elefante Sentado Quieto de acordo com o tempo próprio da mais profunda crise existencial, um tempo do trafegar lentamente e sem rumo por um estado de coisas que parece não ter fim. Daí a importância também da longuíssima duração do filme.

E há, claro, o belo epílogo. Hu Bo demonstra imensa generosidade ao cavar para seus personagens algo que não encontrou para si mesmo: uma perspectiva de felicidade através da criação de laços entre renegados. Um Elefante Sentado Quieto se aproxima, então, mais de Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson, de final igualmente generoso após três horas de sofrimento (nesse sentido, o barrir do elefante seria equivalente ao sorriso para a câmera de Melora Waters), que dos filmes de Iñarritu, Haggis e Villeneuve anteriormente citados.

Um Grande Momento:
O diálogo na pedreira.

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