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O Quinto Set

(Cinquième set, FRA, 2020)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Quentin Reynaud
  • Roteiro: Quentin Reynaud
  • Elenco: Alex Lutz, Ana Girardot, Kristin Scott Thomas, Jürgen Briand, Tariq Bettahar, Quentin Reynaud, Damien Gouy, Victor Ouvrard, Leny Mitjana
  • Duração: 105 minutos

O que torna algo especial não é apenas o que você tem que ganhar, mas o que você sente que há para perder

Andre Agassi, um dos grandes tenistas de todos os tempos, que se aposentou aos 36 anos, fazendo uma reflexão sobre o esporte e a própria vida

Essa é a tônica da vida não só dos atletas de alto rendimento mas também das pessoas comuns: o insustentável equilíbrio entre as ambições e os amores.

Em outra oportunidade, competindo no chão de terra batida sagrado de Roland Garros pela última vez Agassi disse que poderia conviver bem com a derrota mas jamais com o fato de não ter se arriscado. No dia 3 de dezembro de 2000, ele seria derrotado por Gustavo Kuerten em Lisboa, o que deixaria o tenista brasileiro como número 1 do ranking em seu lugar. Em 2001, na quadra Philippe Chatrier, em Paris, nosso Guga conquistava a maior façanha da sua carreira: o tricampeonato em Roland Garros.

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Enquanto o mundo do tênis celebrava Guga como o rei do saibro, a promessa francesa Thomas Edison começava seu declínio. O tenista de apenas 19 anos, treinado pela mãe Judith, perdeu nas semifinais e tentou em vão se manter na elite do esporte. 18 anos depois, após enfrentar três cirurgias no joelho, ele retorna a Roland Garros para reinventar a si próprio e encerrar a carreira vislumbrando alguma glória. O Quinto Set parte desse momento e o retoma. Recorta a vida do atleta, tudo o que ele tem de mais precioso e pode por a perder – a família, a saúde – em troca de uma necessidade ferrenha de fazer as pazes consigo próprio.

Permeado de acertos na construção dramática, o filme de Quentin Reynaud é bastante centrado na figura de Thomas Edison (um ótimo Alex Lutz) e no jogo em si , diferente de outras produções ambientadas no mundo do tênis que pouco se dedicam aos dramas em quadra, o que é um ace certeiro.

O esporte domina todas as cenas de O Quinto Set, mesmo quando a ação está distante das quadras de Roland Garros. Edison trabalha treinando crianças em uma escolinha, a esposa (Ana Girardot), ex-tenista, estuda gestão esportiva e a mãe (Kristin Scott Thomas) é totalmente obcecada pelos meandros do tênis e especialmente pelo sueco Björn Borg, que segundo ela venceria facilmente o atual número 1 do mundo, Djokovic.

Edison não é mais um atleta de ponta e por estar mal ranqueado (245 no ranking da ATP, a entidade do tênis profissional masculino) ele é convidado para jogar as rodadas classificatórias para Roland Garros, um dos quatro grandes torneios mundiais de tênis. Tão ou mais mítico que Wimbledon, que foi fundado 14 anos antes, o torneio francês é responsável por partidas espetaculares e muitas vezes longuíssimas já que os quintos sets não possuem tie break. Edison sabe disso e já sabe também que os médicos o desaconselham a jogar por muito tempo já que tem artrite e outras complicações nas articulações além da lesão no joelho.

Não aguentava mais te ver perder

O personagem possui uma ferida profunda na mão, que cutuca e infere pressão junto a bola de tênis. Parece um flagelo mas não fica muito claro, apesar de graficamente ser muito simbólico já que ele termina as partidas sangrando e manchando o cabo da raquete. Nos momentos em cena que divide com a mãe e ex-treinadora, Judith, fica implícita a dor por tê-la decepcionado. Kristin Scott Thomas evoca tantos sentimentos difusos como a personagem, implacável e obcecada por tênis, que assombra Edison em quadra.

“O que você deve fazer quando se move mal? Encurtar as trocas”. Ouvindo ou ignorando a mãe, Edison vai trilhando seu caminho, passando por três partidas classificatórias até aquela que seria a definidora da sua trajetória.

O Quinto Set trabalha bem as tensões ao passo em que se abstém dos flashbacks e de um mergulho na história do tenista no seu auge. O foco é na superação dos fantasmas e não em ver o personagem se tornando um campeão (e que bom nesse aspecto que assim seja, um filme francês e não um produto de Hollywood com suas metáforas forçadas sobre triunfo). Cada ponto jogado por Edison é uma luta contra as limitações emocionais e físicas. Cada vez que ele consegue reverter uma quebra de saque, confirmar o próprio saque, pontuar, persistir num game com bolas muito altas, anguladas que desaceleram ao contato com a terra batida e exigem que o jogo seja estudado e estratégico no fundo da quadra – ele tem uma vitória. Essa insistência e a negação em aceitar entregar os pontos é apreciada pelo público do torneio e pelos familiares dele, além dos alunos da escolinha que assistem, vidrados, as partidas pela tv.

O enquadramento nos jogos, com a câmera sempre na linha de fundo da quadra pegando a angulação e profundidade dos golpes é um trabalho fenomenal que da ambiência do jogo.

Em outros, mais encurtados para não pesar e tornar monótona a narrativa a câmera enquadra as expressões dos tenistas. Entre disputas, devoluções curtas, passadas e voleios na rede Reynaud constrói uma singela relação entre o desafortunado Edison é um dos motoristas do torneio, que a princípio não aposta nele mas logo passa a ser um torcedor.

Impossível não relacionar a saga da ficção com a maravilhosa jornada das tenistas brasileiras Luisa Stefani e Laura Pigossi que entraram nas olimpíadas de Tóquio no último instante e conquistaram uma medalha de bronze – o que inclusive renderia outro filme.

Mas em O Quinto Set, a primeira cena é Edison se preparando e sacando num belo slow motion, momento que é retomado na sequência final. No terceiro match point, da primeira rodada de Roland Garros, contra o tenista 18 anos mais novo e nova estrela da França, ele tem o saque após cair e machucar o joelho em quadra. O ápice do drama, com Edison tendo a mente invadida por cenas do raio-x do joelho, de raquetes se partindo, da mãe consternada na arquibancada. Dele recuperando a fé em si, vislumbrando o menino que foi, chorando, temendo perder e se perder no seu propósito de ser um tenista excepcional.

Thomas Edison é uma figura inventada, uma interessante construção de Quentin Reynaud perante tantos filmes de esporte – Rush, Borg vs McEnroe – que evocam os aspectos pessoais de lendas para humanizar as narrativas e acrescentar mais emoção, provocando um vínculo com o público. Para os que apreciam e também para os que pouco ou nada sabem sobre o esporte, O Quinto Set empolga. A luta de Thomas Edison é muito genuína e a forma como Reynaud dirige faz o tênis emergir como a modalidade repleta de dores e de júbilos que é. Para os que ainda estão órfãos das olimpíadas é um ótimo programa e que dura bem menos do que uma partida de cinco sets com tie break longo.

A construção do som faz toda a diferença em O Quinto Set, com os violinos que compõem a trilha imprimindo uma carga tão tensa quanto as cordas tesas da raquete que vibram com os golpes investidos contra a bola. Alex Lutz faz das tripas coração em especial na sequência da partida em cinco sets, no Set final.

Mãos que sangram

Como a própria linguagem da vida, uma partida de tênis metaforiza a permanência do espírito humano, que resiste. De um menino com grande capacidade de se tornar um atleta profissional, Edison se torna um homem que escreve o próprio destino. Vencer é não desistir. É conduzir a bola de forma que ela beije o saibro na linha, é respirar com mais força ao ouvir o seu nome reverberar pela torcida, a mão pressionando a bola com força até sangrar.

Na batalha de quatro horas e meia que é o desfecho e o conceito por trás de O Quinto Set
o game está na tela como uma transmissão televisiva, com direito a replay do lance, narração e comentários. Não é mais filme, o jogo está em curso – com um trabalho também incrível dos dublês tenistas dos atores.

Como seu protagonista e underdog do tênis, Quentin Reynaud vinha há anos esperando uma oportunidade de produzir o roteiro que escreveu sobre o tenista buscando um recomeço redentor. O Quinto Set foi então, em 2017, selecionado no “Coup de Coeur de Lecteurs Anonymes” uma lista contendo alguns dos melhores roteiros franceses ainda não produzidos – e acabou chamando a atenção do produtor Léonard Glowinski.

Um grande momento
A transmissão da partida definitiva no quinto set

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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