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O Rio

Traduzindo a correnteza

(Ozen, KAZ, POL, NOR, 2018)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Emir Baigazin
  • Roteiro: Emir Baigazin
  • Elenco: Zhalgas Klanov, Zhasulan Userbayev, Ruslan Userbayev, Bagdaulet Sagindikov, Sultanali Zhaksybek
  • Duração: 108 minutos

Com uma moldura profunda e inacessível, O Rio acaba de estrear na Reserva Imovision e acaba se revelando uma experiência imersiva que se mostra pouco a pouco para além de seus signos Não dá pra encaixá-lo de maneira simples em um escaninho, tanto quanto a produção não se sujeita a impossibilidade de diálogo com o público que embarcar na exótica aventura (exótica sob o ponto de vista do cinema de fluxo). Apesar do seu convite não-usual para entrar em sua atmosfera, a compreensão para o jogo narrativo não é nada truncado, apenas a forma como é escolhida para contar essa narrativa está longe do padrão vigente da indústria, o que não significa hermetismo.

O filme remete, aqui e ali, ao conto da formiga e da cigarra na sua explanação sobre a culpa e como lidar com o que resta da tragédia. No apagar das luzes, quem escolheu e priorizou o trabalho independente da tentação da procrastinação consegue ter uma postura mais assertiva diante do caos; quem se deixou abraçar pela inconsequência e pela preguiça, amarga a dor da perda e da ausência. Diante de uma fábula moral tão atemporal, a narrativa pode parecer castradora, mas sua intenção é não somente reimaginar esses conceitos estabelecidos e enquadrar em uma moldura de “cinema artístico”.

O Rio (2018)
Divulgação

O diretor cazaque Emir Baigazin fecha aqui uma trilogia sensorial de atmosfera peculiar, que persegue cinco irmãos com idades entre a infância e a adolescência constantemente solitários em meio a afazeres adultos, como a construção de um celeiro a partir de cada tijolo. Sem tentar atinar para a situação do trabalho infantil perpetrado por um pai severo refletido no irmão mais velho, O Rio é uma profunda reflexão sobre um modus operandi já gasto mesmo no Cazaquistão, que o filme não tenta proteger. É uma realidade imersa em obrigações pesadas onde não há lugar para a infância, que é quando é evocada se transforma paulatinamente em escalada de tragédia.

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Em um filme com os elementos terra e água tão evidentes em sua concepção, a relação entre o homem e a natureza é elaborada tão explicitamente, sendo um caminho natural para se estabelecer conflitos narrativos e estéticos. O palco para a contemplação principal, tanto dos personagens quanto do espectador, está no personagem-título, que representa uma fonte de liberdade, mas também de tensão. A sinuosidade da correnteza passa pela tela como prova do aspecto geral da obra, sendo ela um coming of age mais específico, mas também é uma lembrança do mal silencioso à espreita da ambientação.

O rio (2018)
Divulgação

Baigazin é um cineasta que costuma traduzir as inter relações sociais e seus códigos com a forma como lidamos também com o espaço geográfico que os cerceia. Em O Rio, apesar da vastidão aparente de horizontes e da imensidão com que cada plano é tratado, essa natureza grandiosa deixa gradativamente a função de palco para assumir outras denominações em cena, de amigo amparador a vilão cruel e testemunha de sonhos, até mantenedor dos desejos mais cruéis dos seres. A função da direção (e Baigazin também é roteirista, fotógrafo e montador aqui, ou seja, o autor completo) alcança o lugar de dar vida a uma força da natureza, que se impõe como agente transformador na experiência coletiva fílmica-narrativa.

Premiado em diversos festivais, inclusive com o troféu de direção na mostra Orizzonti do Festival de Veneza, O Rio acaba por se traduzir da forma como só o elemento essencial poderia. Assustador a princípio, em sua natureza imprevisível, aos poucos a obra de Baigazin amansa o espectador de seus temores para apresentar seus conceitos fabulares mais tradicionais, a tradição versus a modernidade, o encarceramento emocional versus a liberdade física, para contar uma história de deslocamento do nosso lugar no mundo a tal ponto em que nada mais seja possível, que não a redenção e o perdão, ao mesmo tempo em que apresenta ao público menos experimentado à beleza de um povo e de uma matriz de cinema quase desconhecidos.

Um grande momento
A dança final

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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