Crítica | Streaming

O Rei Leão

(The Lion King, EUA, 2019)
Animação
Direção: Jon Favreau
Elenco: Beyoncé, Donald Glover, Chiwetel Ejiofor, John Oliver, James Earl Jones, John Kani, Alfre Woodard, JD McCrary, Shahadi Wright Joseph, Penny Johnson Jerald, Keegan-Michael Key, Eric André, Florence Kasumba, Seth Rogen, Billy Eichner
Roteiro: Irene Mecchi, Jonathan Roberts, Linda Woolverton (personagens), Brenda Chapman (estória), Jeff Nathanson
Duração: 118 min.
Nota: 6 ★★★★★★☆☆☆☆

A Disney segue seu trajeto normal buscando novas minas de ouro a serem exploradas. Dona de franquias como Guerra nas Estrelas ou Os Muppets, dos estúdios Marvel e Pixar, ela sabe como tirar o dinheiro de lugares que pareceriam esgotados à primeira vista. Marketing pesado e a noção de o quanto vale a nostalgia são o suficiente para encher ainda mais os cofres da empresa.

Foi nesse movimento que, em 2010, o estúdio se voltou para seu próprio acervo. A ideia era tentar mais uma vez transformar seus clássicos animados em novas versões em live action, ou seja, interpretadas por atores. A experiência, que começou sem muito sucesso com Mogli, o Menino Lobo e 101 Dálmatas, então seria assinada por Tim Burton e havia mais liberdade na criação do roteiro. Alice no País das Maravilhas voltava às telas não mais como a menininha que seguiu o coelho apressado, mas uma jovem que foge da proposta de casamento.

Alice foi o primeiro de uma série de versões e spin-offs de clássicos dos anos 50 e 60 do século passado, com nomes reconhecidos na direção, elenco e demais atividades. O movimento, premeditado, criou um movimento de ansiedade nostálgica: a espera pelos clássicos mais recentes, dos anos 1990, que voltariam em breve. A audiência cativa do passado é o atual público pagante nos cinema e, em boa parte, tem filhos para levar com eles.

Embora tenham passado por atualizações, principalmente no que diz respeito à representatividade, tanto A Bela e a Fera quanto Aladdin são filmes muito fiéis às animações originais. Uma espécie de agrado ao público conquistado há quase 30 anos atrás. O mesmo público que vai assistir ao novo lançamento, aquele que foi, graficamente, um dos mais impressionantes desenhos daquela época: O Rei Leão.

Se a qualidade da animação já era impressionante, imagina agora com toda a tecnologia atual, com a Disney dominando a computação em 3D. Diferente de seus contemporâneos, não foi possível o live action, afinal de contas, tratam-se de animais em seus habitat natural. Mesmo que os movimentos tenham sido captados de animais reais, o que se vê na tela é mais uma vez a mesma história.

O Rei Leão é uma adaptação da peça “Hamlet“, de William Shakespeare, e está entre as histórias mais pesadas já produzidas pela Disney. Não há aqui a disputa pelo trono com tantas camadas de traição ou loucura como na peça do bardo, mas, ainda assim, é um filme bastante direto e violento para um público acostumado às liberdades criativas do estúdio.

Esta nova versão, dirigida por Jon Favreau, impressiona graficamente hoje como a animação em 2D fez à época de seu lançamento. A reconstrução da Savana, de cada um dos animais e de toda a ambientação é fantástica. Há muito domínio da técnica e isso é inegável. Quando se soma a isto a nostalgia citada no começo do texto, esse apelo à memória de cada um dos novos (mesmo que sejam novos antigos) espectadores, há potência no que se vê. O nascer do sol na apresentação de Simba ao reino ao som de “Circle of Life” é uma das sequências mais poderosas, assim como tudo aquilo que acontece no desfiladeiro.

Além de todo o apuro tecnológico e a certeza de estar acessando um lugar de conforto da audiência, O Rei Leão traz para a dublagem novos nomes de grande apelo pop na música, como Donald Glover, Beyoncé e Iza. Novas canções também foram criadas para a refilmagem.

As inovações param por aí. Se em A Bela e a Fera ou Aladdin novas cenas foram criadas para dar conta de uma demanda, a nova animação é extremamente fiel ao original, seja em construção de personagens, desenvolvimento de ações ou montagem final. Se tudo está no mesmo lugar, é difícil justificar os 30 minutos a mais do filme, sentidos em prolongamentos de cenas que acabam por comprometer o ritmo.

Também é prejudicial o distanciamento criado pela falta de cabimento de variações antropomórficas em um universo que tenta recriar algo natural. Enquanto no desenho era possível fazer expressões humanizadas, que destaquem sentimentos, ou inserir uma juba de pétalas ou uma saia havaiana, em um 3D que visa ser fiel à representação dos animais não há espaço para isso.

Com a relação esfriada pela inadequação de texto e imagem e um pouco cansada pelos prolongamentos, sobra ao filme, além do deslumbre visual, aquilo que está dentro de quem o assiste, a relação criada com o filme anterior. E é assim que a nova animação se estabelece, como algo dependente de sensações que já existiam muito antes de o filme ser projetado, o que não é algo bom para nenhuma produção.

Ainda assim, O Rei Leão já nasce como um sucesso de bilheteria, com sessões esgotadas desde antes de a estreia e com pessoas no mundo inteiro querendo rever a retomada da Pedra do Reino por Simba ao som das canções de Elton John. Exatamente naquele lugar onde a Disney sabe trabalhar muito bem: na memória afetiva. Hoje em dia, não há meio mais fácil de fazer dinheiro no cinema.

Um Grande Momento:
O estouro da manada.

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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