Crítica | Cinema

O Ritual – Presença Maligna

(The Banishing, GBR, 2020)
  • Gênero: Terror
  • Direção: Christopher Smith
  • Roteiro: David Beton, Ray Bogdanovich, Dean Lines
  • Elenco: Jessica Brown Findlay, John Heffernan, Anya McKenna-Bruce, Sean Harris, Adam Hugill, John Lynch, Jean St. Clair
  • Duração: 96 minutos

Há meios e meios de se analisar um filme de horror. Pela estética e o modo como ele acessa e trabalha com o medo, usando ferramentas e elementos que o provocam e mantém, e pela habilidade com que traz a metáfora. O Ritual – Presença Maligna tinha tudo para ir longe, começa muito bem, mas se enrola de um jeito que não encontra muita salvação. Dirigido por Christopher Smith, do bom Triângulo do Medo, o filme busca nas escusas conexões de alguns padres com o que houve de pior na História da humanidade, um gancho para sua história de casa assombrada.

Se a história por trás de tudo é fraca, assim como o método de revelação é frustrante e rasteiro, no mais banal do gênero e conduzido por um personagem exagerado e sem nenhum carisma, o modo como a conexão fantasmagórica se realiza, ainda no começo do filme, é muito bom. Enquanto transita entre realidade tempos distintos, misturando passado e presente através da casa e usando-a como personagem, o diretor faz seu filme funcionar. Porém, ali, cria a expectativa por um filme que não entrega.

Ainda que tenha uma abordagem mais elegante, usando bem os silêncios e os planos longos, apelando poucas vezes para a trilha manipuladora e os jumpscares, o andamento da trama de O Ritual, assinada por David Beton, Ray Lines e Dean Bogdanovich, joga contra e desperdiça todo o esforço na construção de atmosfera. Ainda que também engane, mesmo iniciando do lugar comum, com o básico do ambiente amaldiçoado, situações que se repetem ao longo do tempo e personagens consumidos por questões humanas, quando parte para a elaboração, apela para longos e explicativos discursos que tentam justificar a alegoria nazista e o interesse se esvai.

Apoie o Cenas

Todo o esforço feito para dar algum peso à personagem dúbia de Marianne Forster, vivida por Jessica Brown Findlay (Admirável Mundo Novo), em conjunções do passado e presente e em pistas aleatória, deixa de fazer sentido ao lado de presenças como as de Harry Reed, interpretado por um Sean Harris (O Cavaleiro Verde) deslocado e bem acima do tom, e do bispo Malachi de John Lynch (Morte Negra). São concepções que não fazem sentido e se anulam pelo desequilíbrio e pela desproporcionalidade das informações que trazem, sem falar no tom completamente aleatório.

Como a trinca de personagens, o filme como um todo é perdido na falta de regularidade. Há coisas que recebem muita atenção e outras que são vistas rápido demais, assim como uma vontade muito grande de falar sobre muitas coisas diferentes, de questionamento da fé aos costumes patriarcais. Não que isso não faça sentido na cabeça dos roteiristas, tendo em vista que é um filme que tem um interesse em fazer uma metáfora, ainda que ela não se concretize a contento, mas o inchaço causado prejudica não só o terror em si, mas o próprio desenvolvimento da história.

O interesse por O Ritual só se mantém porque Smith realmente é habilidoso e consegue resgatar a atenção que se perde tantas vezes. Ele sabe como manipular a tensão e o suspense e reconhece o ponto forte do filme: a insanidade convertida em confusão temporal. O diretor executa isso bem e é o que, para além de qualquer história de assombração, fantasma e vingança, vale.

Um grande momento
Segurando Betsy

Curte as críticas do Cenas? Apoie o site!

Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
Botão Voltar ao topo