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A Lenda do Cavaleiro Verde

A jornada é para dentro

(The Green Knight, IRL, CAN, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Fantasia
  • Direção: David Lowery
  • Roteiro: David Lowery
  • Elenco: Dev Patel, Alicia Vikander, Joel Edgerton, Sarita Choudhury, Sean Harris, Ralph Ineson, Kate Dickie, Barry Keoghan, Erin Kellyman, Helena Browne, Emilie Hetland, Anthony Morris, Megan Tiernan
  • Duração: 130 minutos

Para sempre gravada no coração e na espada como os grande mitos da era passada, a “Lenda de Sir Gawain” e o cavaleiro verde está no imaginário popular dos britânicos e daqueles que amam histórias de cavalaria medieval. As lendas milenares do Rei Artur são fonte inesgotável de magia, aventura, sonhos e também, de trevas. Da busca do Santo Graal às intrigas palacianas, alimentaram tantas e tantas histórias e continuam. David Lowery resolveu adaptar para o cinema um dos mitos mais assustadores e fica visível sua afeição pelo objeto – logo ele, que já contou histórias de fantasmas, que alimenta uma certa obsessão pelos mitos e os significados que eles tem para nós -, que começou a cozer como uma ideia de roteiro lá no final da década de 80, inspirado pela fábula Willow, de Ron Howard.

Assim temos, estreando na plataforma Prime Video ao invés de nas salas de cinema, A Lenda do Cavaleiro Verde, adaptação cinematográfica que, com as devidas licenças poéticas, reconta o feito mais célebre do cavaleiro da távola redonda Sir Gawain, cantado em verso e prosa: a decapitação do encantado cavaleiro verde.

O Cavaleiro Verde
A24

Pela sua desimportância perante a corte, Gawain (Dev Patel) aceita o desafio do cavaleiro verde em nome do Rei Artur e embarca numa jornada de troca de presentes, numa especie de “jogo natalino”. Lowery faz algumas trocas, como a inclusão do amor e do sexo nas interações de Gawain com Essel (Alicia Vikander) em lugar do puritanismo do amor cortês, intervenções de Morgana como que “convocando” o cavaleiro verde e a utilização da Excalibur como arma na decapitação inicial mas mantém fidelidade histórica a lenda em outros quesitos como a presença do fiel cavalo gringolet na aventura do cavaleiro.

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A narrativa busca seguir a forma de um poema medieval em som, imagem e fúria na duração de 2 horas e 10 minutos, com letreiros adornados que apontam para momentos importantes na jornada do cavaleiro, usando epígrafes presentes no poema.

O Cavaleiro Verde
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Os efeitos especiais só claudicam na cena das gigantes, de resto são impecáveis e ajudam no clima fantástico, assim como a trilha sonora que enfeitiça e tem o poder de projetar, em conjunto com o design de produção, o drama para o centro da ação de uma forma contemplativa. A fotografia ressalta, a partir das fagulhas de raios solares que entram na lente em cenas diurnas, como Gawain é protegido pela luz – em algumas narrativas medievais a força do cavaleiro aumenta de manhã até o meio dia e diminui até o por do sol, o relacionando a algum antigo mito solar bretão. A paleta de cores deslumbrante ressalta os tons amarelos, alaranjados, azulados e especialmente os esverdeados.

Não tem procedência alguma as acusações de transfobia perante algumas escolhas narrativas de David Lowery já que a fidelidade ao texto épico é grande e a substituição da amizade pelo romance de Gawain com a personagem andrógina Essel é, novamente, uma escolha, assim como o utilizar o colorblindness para escalar um ator não-caucasiano para o papel de protagonista. Os atores interpretam suas falas em uma espécie de inglês médio (“I” em lugar do “Yes” por exemplo), próximo aquela rusticidade do idioma no século XIV; e além de Dev Patel, altivo, frágil e perfeito como Gawain, Barry Keoghan faz uma ótima participação como um miserável assaltante e Joel Edgerton como o misterioso senhorio do castelo.

Sensorial, arrebatador e muito próximo do tom denso do poema – em especial na irretocável adaptação de Tolkien – A Lenda do Cavaleiro Verde é marcadamente um épico cinematográfico, cujos momentos ficam impressos na retina.

Um Grande Momento
“Lá se vai sua cabeça”

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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