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O Souvenir – Parte II

Ofertando versões da verdade

(The Souvenir - Part II, EUA, RUN, IRL, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Joanna Hogg
  • Roteiro: Joanna Hogg
  • Elenco: Honor Swinton Byrne, Tilda Swinton, Ariane Labed, Richard Ayoade, Joe Alwyn, Harris Dickinson, Charlie Heaton, James Fox, Barbara Peirson, Tom Burke
  • Duração: 105 minutos

Começar a escrever sobre O Souvenir – Parte II assim que a sessão se encerra, é como ser interrogado pelo testemunho de um assassinato logo após o disparo dos tiros. Não é a primeira vez nem será a última que um filme exigirá mais tempo de reflexão do que temos a disposição, mas existem casos como esse onde escorrerá pelos dedos o tanto de apuro que poderíamos alcançar em mais tempo. O desafio que Joanna Hogg nos propõe não é apenas o da comunicação com uma muito bem sucedida obra anterior, mas o de desconstrução das nossas percepções acerca de uma relação tóxica encerrada de maneira trágica. O que está em cima da mesa dessa vez são os reflexos desse fim de jornada, e não da maneira mais sossegada; tudo ainda é eco, dentro e fora de Julie. 

Não é como se Anthony tivesse se tornado alguém melhor, isso não está em debate. Mas talvez esteja a ideia de que, mesmo depois da existência, esse homem continue arrastando quem o amava ao inferno, agora ao da ausência, da culpa e da inconformidade. Ou seja, não é como se livrar de um horror em vida, mas transformá-lo em presença física diante do etéreo. Julie não percebe que sua obsessão com um amor que quase a destruiu psicologicamente não será alterada com o mergulho profundo nesse oceano, mas ela segue tentando exorcizar um fantasma que fez moradia nela. Hogg concentra seus esforços narrativos em nos conduzir até essa ligação que não deixa de ser doentia, para então transformar tudo isso em Cinema. 

As coisas estão no centro da tela, organizadas pelo roteiro, mas também caminham à espreita tentando se fazer presentes no extra-filme, para encontrar sua hora de iluminar a produção. O Souvenir – Parte II aproveita essa tentação à observação que é comum ao artista, e nos apresenta essa “nova” Julie, que enxerga no audiovisual o que qualquer autor já o fez – divã não-assumido. É um passeio consentido pela personagem ao interior de suas dores, de suas perdas e negações, que se transformam gradativamente em obra, cujas camadas o filme revela aos poucos, sem nos dizer qual caminho percorrer. Nem sempre é uma reta suave para se fazer, mas a diretora compreende que a identificação é facilitada e conta com isso para o crescimento da obra em si e da personalidade em particular. 

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O Souvenir - Parte II
Rekha Garton

Julie Harte / Joanna Hogg, as associações de iniciais estão aí para serem feitas. Ambas são a mesma pessoa, não vamos fingir que não, e precisam convergir para que seus filmes (ambos de mesmo título) façam então sentido, nessa comunicação conjunta. O Souvenir – Parte II também é essa grande homenagem ao Cinema que os cineastas contemporâneos estão investindo – praticamente não parece existir outro tema na atualidade, além de ‘eu e o meu cinema’. Sem qualquer juízo de valor, principalmente quando esses divãs são tão sofisticados quanto os que Hogg promove, inclusive se colocando na berlinda enquanto realizadora e pensadora. Tudo isso sem elucubrar imagens extravagantes ou pensamentos elegíacos a respeito de tudo que a cerca; estamos diante do melhor cinema indie americano possível, leia-se naturalismo e coloquialidade ao extremo. Até que… 

…em meio às discussões altamente reconhecíveis acerca de dividir com o alheio suas próprias memórias, e não ter como medir o impacto do que aconteceu a si com o próximo, surge enfim um momento de ruptura da produção com o naturalismo. Ao assistir à sua própria obra, Hogg/Harte se permite acessar o que nem mesmo ela compreende, e o filme ocupa então por cinco minutos seu inconsciente. Nesse momento, a diretora de fora se ergue para compreender sua autoralidade, rompendo o estabelecido com o delírio. É um momento que reafirma a necessidade de encontro com o autorismo que ela pratica, tão genuíno que somos capazes de apalpar. 

Com essa pausa dramática para uma saída repentina, O Souvenir – Parte II pode seguir rumo ao que tem de mais essencial, que é a argamassa que nos conduz ao cerne dessa artista – quem ela é como pessoa, e como nos identificamos com suas experiências humanas, aqui tratadas como ficção. Porém é tudo delicadamente manipulado para a transformação de nossas memórias, aqui no espectador. O que Hogg quer é mostrar essa paleta de cores da memória sendo embaralhada, porque o fato é algo e a lembrança desse fato já não mais o é. Estamos diante então de uma outra camada de realidade, aquela que não é mais o que aconteceu, mas o que é compreendido do que aconteceu e transformado em nova verdade. Um filme, tal como aqui, ainda pode compreender novas perspectivas, como a representação dramática disso tudo, ou seja, ainda novas versões que serão eternamente alteradas ao longo do fluxo de pensamento mutante.

Um grande momento

A discussão na van

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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