Crítica | Festival

O Telhado

(Al Sateh, PAL, 2006)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Kamal Aljafari
  • Roteiro: Kamal Aljafari
  • Duração: 63 minutos

“meus pais moravam no térreo, e o passado morava em cima”

Se não tivesse absolutamente mais nada a dizer, O Telhado, que está no Olhar de Cinema como parte integrante do Foco Kamal Aljafari, dedicado a investigar a obra do realizador palestino, ainda pouco conhecida do público brasileiro, é o seu primeiro longa, de 15 anos atrás, e mostra uma inquietação particular com seu espaço geográfico já pelo título, mas que é ressignificado pela forma como a sua própria família reage a esse entorno, à História da Palestina e como ela também afetou sua origem. As ruas da cidade e os encontros entre seus familiares acabam ecoando uns aos outros, e revelando em paralelo um estado de espírito muito mais abrangente do que aparenta.

Esse telhado metafórico que cobre sua família, o peso de uma História que é rememorada oralmente e visualmente, não está apenas no peso que observamos em cada roda de jantar ou em cada sala de televisão. As ruas de Hamle e Jaffa são parte indissociável de um povo que construiu sua trajetórias em escombros, sendo constantemente dizimados e reconstruídos (muitas vezes, pelos mesmos autores, que muitas vezes dominavam suas terras); em sua travessia, o que Aljafari filma é que esse “telhado” que cobre a Palestina ainda se faz presente, de modo explícito e bruto. Tudo ainda está aos pedaços constantemente, desde os primórdios até o dia de hoje.

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Esse passado que cobre um povo parece se revirar graças a uma nova geração (o diretor tinha 33 anos quando filmou O Telhado), mas encontra os antepassados presos a mortalhas da contemporaneidade. A família do diretor é presa às tradições e está com frequência reunida, em torno da mesa de jantar, ou em torno da tela da televisão, literalmente vidrados em novelas locais e que os aproxima da nossa própria cultura. “Pão e circo” vende em qualquer lugar do mundo, e é necessário uma voz dissonante para que sejam acordados de uma letargia da banalidade, para que entendam a relevância de suas raízes.

Os diálogos travados entre Aljafari e seus familiares obedecem uma lógica etária, que permite uma reflexão sobre o hoje entre as pessoas que partilham idade com ele, e uma outra espécie de pensamento, a partir das recordações que surgem da conversa com sua avó, por exemplo, que viu os eventos de 1948 de muito perto, onde, sob mandato britânico, a Palestina se viu arrasada por árabes e israelenses. Parte desse relato pulsante de terror sai da boca da senhora e encontra respaldo em ruas que ainda mostram o passado presente, em uma geografia da tragédia que está impressa tanto em jovens quanto em idosos, ambos presos visualmente a esse cenário.

Em rápida 1 h de duração, o diretor apresenta sua visão sem romance de uma História impossível de se apagar porque já virou espaço físico, dentro e fora das casas. Enquanto os telhados das ruas são a visão constante da ruína que se estabelece e não se tenta mudar, com seus moradores mantendo o status quo do que se convencionou aplicar em sua geografia, o interior das casas é coberto por um telhado que prostrou seus habitantes entre obedecer a um passado dilacerante ou embarcar em uma ideia de dominação contemporânea. Não há como fugir de telhados que nos aprisionam, e que sabotam todas as saídas.

Um grande momento
O relato da avó

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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