Crítica | Festival

Deus Tem AIDS

Vamos conversar sobre HIV?

(Deus Tem AIDS, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Fábio Leal, Gustavo Vinagre
  • Roteiro: Fábio Leal, Tainá Muhringer, Gustavo Vinagre
  • Duração: 81 minutos

Saber que, hoje, no nosso tempo, em 2021, ainda morrem mais de 10 mil pessoas por ano vítimas de Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, ou seja AIDS, no Brasil… não deveria chocar a uma população que se vê desgovernada há quase 3 anos completos, que foi vítima de um GOLPE em 2016, que agoniza (essa sim, em praça pública) diante de uma corja de assassinos, covardes e ladrões, mas choca. Choca porque representa em parte ignorância nossa em não saber desses dados ainda alarmantes, choca porque isso não é noticiado a contento, choca porque o governo contribui com louvor para que essa política de extermínio continue indo muito bem, obrigada. Acordar e saber que existe um filme chamado Deus tem AIDS me faz particularmente feliz.

Feliz porque falta provocação na arte, feliz porque falta acesso a informação em meios oficiais, então que o cinema, o teatro, a literatura tentem cobrir uma parcela desse descaso – óbvio, sem creditar essa obrigação a nenhum artista. E feliz porque, sei lá, sessão terminada, acima de tudo, eu queria abraçar Carué, Ernesto, Flip, Kako, Marcos, Micaela, Paulx e Ronaldo. E beijar, cada um deles. Porque eu acho que um bom cinema nos apresenta sensações, experiências, sentimentos, debates, olhares, imagens, mas também me apresenta gente. E eu amei cada uma das pessoas vista em cena – e até as que estão ali pra servir à cena, tenho vontade de abraçar.

No meio desse cerne, Fábio Leal e Gustavo Vinagre. De um lado, um cineasta estreando em longas mas com experiência em desglamourizar a ficção e trajá-la do real; do outro, um outro cineasta que desqualifica o real para documentá-lo, que transmuta seus personagens na frente dos seus olhos. Ver Deus tem AIDS pronto é ter a certeza de que essa comunicação, que não imaginávamos entre O Porteiro do Dia e A Rosa Azul de Novalis, por exemplo, existe e sua simbiose vai além de qualquer letra da sigla LGBTQIA+ — mas que também não podemos localizá-los somente como tais; o filme novo de ambos, através de alguém que só conversar sobre HIV na rua, escancara: “não precisamos ser ou estar para conversar ou debater sobre isso”. E aí sim, é sobre isso.

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Deus Tem AIDS
Foto: Divulgação

É sobre performance também, é sobre ressignificar o olhar do espectador para pessoas que deveriam ser arrancadas das paredes e que lhes oferece a boca ensanguentada. É encontrar arte no trabalho de iluminação de Tiago Calazans e criar planos que vão além do vazio conceitual, mas sem desprezar o que tem de potente na expressão. Há um conceito no que filmar, em como filmar aqueles corpos imperfeitos, em o que captar daquelas falas, e em como situar aquelas falas para longe do panfleto, humanizando cada experiência, cada passado. Se uma cresceu em um abrigo com o vírus nas veias desde nascer, o outro contraiu aos 22 anos e praticamente só teve vida sexual já portador. Corpos e falas estão no mesmo calibre de verdades.

É sobre montar também. O trabalho de Beatriz Pomar e Quentin Delaroche transformou possíveis muitas e muitas (e muitas!, creio) horas de conversas – e quem dera um dia ter acesso a todo esse material – em corte bruto, que muitas vezes ultrapassa a questão do tom da cena para reavaliar todo um discurso, a partir do simples ato de cortar, no momento certo e de maneira incisiva, em cima de histórias cuja função tinham uma exclusividade; emocionar, comunicar, informar, poetizar, sintetizar, amplificar, todo um grupo de pessoas negadas pelas propagandas, pelo poder público, pela maciça imprensa. Era isso tudo junto e ainda mais, e o processo sucinto dessa montagem sem sobressaltos ou ampliação indevida.

Vinagre e Leal, juntos, conseguem trazer o melhor de seus olhares, de seus modus operandi narrativo, realizam uma obra de potência emocional e física, mas acima de tudo, tem consciência da necessidade de uma não-presença para que essas vozes, essas tão porcamente ouvidas vozes, tenham enfim um espaço de exposição. Não é somente uma vitrine viva de segmentos e causos, mas uma explanação profunda sobre um estado de coisas, interiorizado muitas vezes, de pessoas que ainda não tinham expiado suas memórias em público. É por essas e outras que a provocação que reside no título (e que é justificada pela linda cena da leitura da poesia) serve para aproximar o público final de um grupo de pessoas que, ao mesmo tempo que são tão díspares em suas colocações, suas potências e seu material humano, graças a Gustavo e Fábio são também capazes de nos aproximar, e ter vontade de fazer carinho em uns, transar com outros, nos sensibilizar com a verdade de todos.

Um grande momento
Impossível escolher um só, em um filme onde todos tem seu imenso momento.

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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