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Dano Colateral

Casamento de formas e enredos

(Kin, TUR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Turkan Derya
  • Roteiro: Yilmaz Erdogan
  • Elenco: Yilmaz Erdogan, Ahmet Mümtaz Taylan, Cem Yigit Uzümoglu, Ruzgar Aksoy, Duygu Sarisin, Yosi Mizrahi, Elif Gizem Aykul, Ümit Belen, Enes Küllahçi, Ilyas Özçakir, Onur Ulutas, Erdem Sakalibüyük
  • Duração: 105 minutos

Uma pessoa mata alguém por acidente. Qual é a primeira coisa a fazer? Ligar para a polícia e contar o que aconteceu, certo? Não foi uma, duas ou três vezes que vimos que não. Na ficção, o normal costuma ser o contrário, personagens em filmes, séries e novelas tentam esconder a autoria do assassinato e isso vai virando uma gigante bola de neve. Podemos até criar uma categoria para esse tipo de narrativa: o filme de covardia. Brincadeiras à parte, a fórmula, mesmo repetida à exaustão, segue atraindo o público e não deve ser diferente com esse exemplar turco que chega agora à Netflix. Dano Colateral é mais uma aposta da plataforma na cinematografia do país que, assim como a Polônia, tem feito sucesso com a audiência brasileira, e funciona bem como o thriller que se propõe a ser.

O ponto de partida é esse velho conhecido: uma morte acidental e uma péssima decisão. A coisa de um evento ruim que vai puxando outro pior também virá, mas o espectador não vai seguir aquele caminho tradicional. A trama aqui é um pouco mais complexa, na verdade ela mistura dois caminhos e o outro também é um velho conhecido: o da vingança por incriminação, ou seja, a bola de neve vai ser muito maior. O protagonista, o policial Harun, faz a besteira e, além disso, tem uma dívida com o passado. O morto encoberto inicia uma outra história que está sob o controle de outras pessoas.

Dano Colateral
Foto: Reprodução

O roteiro é assinado por Yilmaz Erdogan, que também protagoniza o filme. Ele é um nome famoso do cinema turco, atuou em Era Uma Vez na Anatólia e tem um lista de filmes mainstream, onde também assume a cadeira de direção, sendo Vizontele (também disponível na Netflix) o primeiro passo nessa jornada. Com facilidade de variar entre os gêneros, ele tem um gosto especial pelo melodrama e isso se percebe no texto de Dano Colateral, mas nada que se exceda, pelo contrário, tem momentos específicos e pontuados. A trama segue o padrão e leva o espectador para onde quer, mesmo que facilite aqui e ali ou esbarre em obviedades.

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O longa tem um roteiro funcional, nada que seja muito elaborado e nem feito sem dedicação. Não existem coadjuvantes complexos, nem mesmo o protagonista o é, e os acontecimentos vão mesclando curiosidade e ação. É após a primeira reviravolta, quando o suspense começa a se elucidar, que o roteiro tropeça em si mesmo. Gül, apesar de ser uma personagem importante, tem passagens tão mal encaixadas que sua presença em quadro é quase mais estética do que efetiva. A reviravolta final também segue o mesmo esquema e os flashbacks, tão tradicionais para validar ou assegurar o entendimento do público que não estava prestando muita atenção, não ajudam em nada. 

Dano Colateral
Foto: Reprodução

A similaridade de traços da teledramaturgia brasileira é uma característica no audiovisual turco, pelo menos na produção comercial, e isso também está na obra da diretora Turkan Derya, aqui em seu segundo longa depois de várias novelas e seriados. Se no filme a gente identifica esses sinais em planos, ângulos e encenação, há também muito do que se vê nos seriados policiais que tomaram conta da TV fechada por um longo tempo. Dano Colateral é um casamento das duas propostas e isso dá a ele uma familiaridade que acaba fazendo com que o longa flua de maneira mais fácil.

Assim, casando tramas e formas, o filme cumpre sem grandes percalços o seu papel de entretenimento de consumo rápido e indolor. Com uma história que começa óbvia e se complexifica, em um roteiro irregular. Não vai ser nada que vai ficar na cabeça por muito tempo, mas entrega exatamente aquilo que prometeu, e até que diverte.

Um grande momento
Pendurado

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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