Crítica | Festival

O Protetor do Irmão

As criaturas somos nós

(Okul Tıraşı, TUR, ROM, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Ferit Karahan
  • Roteiro: Gülistan Acet, Ferit Karahan
  • Elenco: Samet Yildiz, Ekin Koç, Mahir Ipek, Melih Selcuk, Cansu Firinci, Nurullah Alaca, Mert Hazir, Mustafa Halli, Münir Can Cindoruk, Umit Bayram, Dilan Parlak, Ferit Karahan
  • Duração: 85 minutos

O que vemos no rosto de Yusuf só tem um nome, e vai se descamando a cada nova cena de O Protetor do Irmão, criando ambiguidades e reconfigurando a narrativa: medo. De onde ele vem, qual a sua origem mais remota, de que é feito esse pavor crescente que se esgueira pelo olhar do menino e estabelece uma diretriz para a produção e que continuamente injetam frescor em uma estrutura cadenciada, é o cerne da questão. Em cartaz na décima edição do Olhar de Cinema, não demora pra que percebamos de onde vêm a inspiração para sua atmosfera crescente de angústia e a placidez com que os eventos ocorrem.

O diretor turco Ferit Karahan, embora descenda de uma filmografia que já nos apresentou Nuri Bilge Ceylan (Winter Sleep) e Semih Kaplanoglu (Um Doce Olhar), tem sua inspiração nas tensões mundanas que o Irã lega ao cinema há algumas décadas. Sua espécie de denúncia escondida, a preocupação com um ritmo que demande uma agilidade adormecida, o jogo narrativo que esconde culpados e inocentes em profusão, remetem ao que é produzido por aquelas bandas, sem perder qualidade de realização. Com apenas 38 anos, e três longas anteriores no currículo, Karahan ambiciona transformar gradativamente sua moldura naturalista em um palco para o gênero.

Em um espaço enorme, encravado entre montanhas, perdido em uma nevasca e separado da civilização pelo inverno rigoroso, crianças são assombradas por árvores ameaçadoras, e adultos ainda piores. Guillermo Del Toro pensou em algo parecido com A Espinha do Diabo, mas lá se assumia uma postura fincada no horror, que aqui se apresenta sutil, mas no espaço-tempo de um dia, muitos demônios virão à tona. O mais interessante (como em todo bom exemplar filme de horror) é como aquela experiência afeta o que há de humano ali; árvores são árvores, paredes são paredes, mas o material humano sempre poderá ser moldado para além da aparência, porque é neles que nascem as ambiguidades e idiossincrasias.

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É dessa vontade de subverter o realismo que o cinema autoral do Oriente Médio emprega com frequência que Karahan desde a primeira sequência, um banho coletivo infantil onde já se expõe tortura física e psicológica, trabalha com interesse para alavancar o que de pior pode haver onde menos se espera. Para isso, sua apropriação do campo imagético, onde esconde e revela por trás dos espaços as molas de um gênero que raras vezes dá as caras nessa região, acaba por chamar mais a atenção. Está tudo lá: a imagem quase teatral do castelo congelado ao longe, a escuridão da noite que esconde vilões e doenças, e uma espécie de tabuleiro desordenado com uma “cena de crime” – quem é o assassino?

A entrada em cena dessa estratégia quase detetivesca em torno de um culpado para algo tão prosaico vai sendo reconfigurada a cada nova possibilidade aventada. O Protetor do Irmão, como os melhores projetos, entrega desde o início suas pistas reais, que estão na nossa cara o tempo todo, mas que só na reta final é apresentado com clareza. Essa brincadeira acaba retirando a carga de repetição de sua fórmula, emulando uma homenagem ao cinema que dificilmente encontra eco na Turquia, ou no Irã.

O que deixa o gosto ligeiramente amargo é como esse molde final é construído ao apresentar suas armas. Não há perda de material analítico para as intenções de Karahan, mas sua intencionalidade acaba por mascarar uma parte da trama com o intuito de twist, o que desarranja a organicidade apresentada até então, com direito a rememoração de flashback meramente intuitivo. Tinha como montar o quebra-cabeça sem tentar trapacear com o olhar do público, mas a intenção de chafurdar no terror e no suspense era tanta, que o autor esqueceu que a mola mestra de qualquer roteiro em qualquer gênero é não ludibriar. A ilusão é uma arte que se não aprende do dia pra noite.

Um grande momento
“Posso dormir com você?”

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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