Crítica | Festival

Garotas | Museu

Arte na berlinda

(Girls | Museu, ALE, 2020)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Shelly Silver
  • Roteiro: Shelly Silver
  • Duração: 71 minutos

O cinema enquanto prática que explora outras sensações, que não apenas a do espectador-fílmico, mas também a construção de nova forma de explorar o ato de assistir, e construir uma análise sobre o que foi visto. Ou seja, quase um objeto de metalinguagem vivo, somos nós assistindo Garotas | Museu, uma das mais curiosas atrações da décima edição do Olhar de Cinema; nós assistimos quem assiste. E para a crítica cinematográfica, é uma posição ainda mais curiosa, porque estamos também analisando uma obra sobre a construção do pensamento crítico. O poder de deixar uma obra de arte nos levar para qualquer que seja o recorte emocional, geográfico e comportamental, apontados por uma distinção particular.

O mote narrativo que a realizadora Shelly Silver desenvolve é a respeito de um grupo de meninas adolescentes na Alemanha, levadas a um museu, e a partir dessa visitação, inquiri-las sobre as obras vistas, suas sensações, sua possível identificação, e como se colocar nos lugares retratados, de alguma forma. É um grupo heterogêneo, que identifica pontos comuns ao longo dessa espécie de entrevista, mas que acabam por cair em diferenciações pontuais que não apenas definem suas personalidades, como faz um apanhado sobre o olhar jovem feminino de hoje sobre uma miríade de assuntos, contemporâneos ou não.

Tudo parece meticulosamente envolvido para que o próprio espectador (esse que assiste a obra de Silver) se coloque no lugar das personagens, também ele analisando pinturas e esculturas, tentando chegar a conclusões que moldariam nossa personalidade, como fazemos com as meninas em cena. O jogo montado em cena e que acaba por mergulhar duas raias de análises – a interna e a externa, nossa – é o ponto de ebulição para discutir tanto o nascimento da análise quanto a predisposição comportamental de garotas adolescentes e seu relevo, para um lado progressista em alguns aspectos mas também muito conservador em diversos outros.

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Silver recorta as imagens no quadro para explicitar os apontamentos, e cria com isso uma edição dinâmica que nunca permite ao filme provocar enfado. Mesclando bom humor (ainda que na maior parte das vezes, não intencional) com agudas observações que revelam muito mais sobre as personagens que das obras, Garotas | Museu se instala no imaginário em relação a uma fase da vida de um certo apreço pela controvérsia e defesa da justiça, mas acabamos por perceber que o conservadorismo já começa a mostrar sua nova definição de moral dentro de um olhar para pessoas brancas de poder aquisitivo elevado.

Não que sejamos surpreendidos com tal percepção, mas a inocência com que algumas questões são proferidas, em relação ao lugar da mulher no espaço contemporâneo a partir das sequências finais, quando elas chegam até fotos representativas da sociedade atual, deixa claro que essa fatia já está normalizando certas linhas de pensamento retrógradas. Esse tanto de proposição de cena, um jogo bem urdido que mistura documentário com instalação, coloca a obra de Silver em um lugar de encantamento com tantas camadas, que espelham não apenas o surgimento de uma fatia atrasada como também uma deliciosa brincadeira interativa com o espectador.

Um grande momento
“Eu não deixaria minha amiga tirar essa fotos”

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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