Crítica | Festival

Rumo ao Norte

Ode aos meus

(North by Current, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Angelo Madsen Minax
  • Roteiro: Angelo Madsen Minax
  • Duração: 86 minutos

O american dream, conceito pelo qual tantos filmes e vidas americanas são tragados em seu berço, reféns de um estado político que não legou nada ao seu cidadão comum, é um ideal cada vez mais fadado ao fracasso, e com a crise econômica, o dinheiro foi apenas um dos pilares a desaparecer – a euforia exuberante e o entusiasmo natural se despediram também. Sobrou uma sucessão de seres inertes e depressivos, cuja melancolia adoece o seu entorno. Rumo ao Norte, um doc de estrutura familiar, investe na observação de um núcleo assolado pelo que sobra de uma tragédia; o anti-sonho americano se refestela em silêncio.

O diretor Angelo Madsen Minax tem coragem de desvendar não apenas as idiossincrasias dos seus pais e sua irmã, mas principalmente mostrar a essência de uma relação amarrada por um evento trágico que desestabilizou a todos, cujas vítimas não param de ser contadas durante a produção. O rancor não está na ordem do dia, ele se enraizou e permanece escondido pelo afastamento do diretor, que consegue transcender encontros em cinco anos que reorganizam os sentimentos que cada um nutre ali. Um acerto de contas que Angelo filho e irmão utiliza para afiar a narrativa pensada por Angelo.
cineasta.

Rumo ao Norte não é uma produção única em sua tematização, mas não há risco de encontrar repetição nas sensações que suscita, porque os valores que o filme debate são de tessitura tão universal quanto única, afastando-o de similares; Histórias que Contamos, de Sarah Polley, vem logo à memória. Aqui o detalhamento com suas sutilezas, os silêncios e as coisas nunca ditas encontram eco na experiência do espectador ao encontrar a obra, que vê refletida relações familiares comuns. Minax costura com discrição os fatos de sua jornada familiar e da sua própria, para se dedicar ao olhar de cada um em cena.

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Rumo ao Norte
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Olhar de Cinema

O cineasta deixa a porta aberta para a quebra da quarta parede quando escolhe revelar o processo de filmagem, conectando três versões de uma mesma sequência e criando um código cinematográfico a partir daí. O que investiga com essa textura é a possibilidade de uma dramatização pretendida, ensaiada, ou seja, uma reimaginação do real e de suas possibilidades. Os fatos existem, o horror aconteceu, então Minax pode agora conjecturar suas ideias em cima de espelhamentos do real através da relação com cada um de seus entes. A troca existente entre eles permite criar novas saídas para a dramaturgia, com suas nuances realçadas por uma possível camada ficcional que não é flagrada.

A sexualidade de seu diretor é um ponto de desdobramento da narrativa, assim como a de sua irmã com conotações diferentes. A descoberta da transicionalidade de Minax é explorada através principalmente da relação entre ele e sua mãe, das coisas que nunca foram estabelecidas entre eles e uma pergunta nunca feita. Já Jesse vive um processo de substituição à perde, vivendo inúmeros processos de gravidez encavalados uns nos outros, perdendo o sexo para ganhar uma maternidade eterna, com questões muito intrincadas. O diretor flagra as intersecções entre ele e sua irmã sempre de maneira tímida, para que sejam paulatinamente acessadas.

Com propriedade para resgatar as imagens de arquivo de sua casa, em reiterar o afeto interrompido das relações entre os seus, o diretor transforma seu filme em uma carta de amor sanguínea, onde tais relações, devassadas pela captura imagética, são refeitas graças à sua potência de repensar feridas e refazer as estruturas de confiança emocional entre seus personagens. Não importa o que acontecerá na próxima reunião de família, Rumo ao Norte trata cada uma das imagens (as produzidas para o projeto e as capturadas pelo passado) como uma forma de reaproximação de uns com os outros, e de um homem com seus laços familiares.

Um grande momento
Almoço de família

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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