Crítica | Festival

A Matéria Noturna

Encontrar e perder e encontrar e perder…

(A Matéria Noturna, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Bernard Lessa
  • Roteiro: Bernard Lessa
  • Elenco: Welket Bungué, Melanie de Vales Rafael, Altamir Furlane, Shirlene Paixão
  • Duração: 89 minutos

A diferença entre Jayane e Aissa, em suas apresentações unitárias, chamam a atenção pelas diferenças de intensidades. A ela, cabe uma introspecção e uma espécie de medo que assola sua atmosfera; a ele, uma efusividade com o momento atual, um desejo intrínseco de experimentar tudo. A personalidade dela é um recorte de Brasil atual, amedrontado e cabisbaixo, longe da normalidade, em alerta constante, enquanto ele, um moçambicano descobrindo o país, representa o sopro de esperança diante do novo, em festiva imigração. Esses são os protagonistas de A Matéria Noturna, longa que integra o Olhar de Cinema e que imprime um quadro de inconstância em sua narrativa, mais uma característica do país hoje.

São duas existências que pedem passagem pela cor de sua pele, pela imagem periférica e orgulhosa que carregam, pelo tom que encontraram para narrar as próprias experiências de maneira não-vitimizada, sempre vibrante e com inquietações mais amplificadas que o cinema brasileiro costuma dedicar. Ao redor desse futuro casal, encontram-se mais do que sua zona de afetos, mas uma marca indelével que expresse um genuíno respeito pela negritude, ao traduzi-la em naturalidade e segurança. É uma história de agradável frescor sobre homens e mulheres que estão em uma época de encontros com seus sonhos, e eventuais diásporas, geográficas e afetivas.

© Rede filme, Kussa Productions, Pique-Bandeira, Dilúvio Produções

O diretor Bernard Lessa reencontra o protagonista Welket Bunguê quase em um desdobramento psicológico e sensorial de um filme anterior seu, Tejo Mar. Seu personagem, Aissa, de novo é um homem em processo de entremeios – está em outro continente que não o seu, tem motivos pra voltar e motivos pra ficar, o sonho da realização esbarra com outros sonhos de texturas mais complexas. E o encontro com Jayane representa uma reconfiguração de suas potencialidades não apenas como figura braçal, do qual ele não quer estar condenado a ser; todo ele transpira liberdade emocional. A partir dessa conexão, Aissa encontra outros motivos para resistir.

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Jayane é uma mulher em outro lugar constituído. Passa por um momento de reconstrução de seu papel social, dentro do mercado de trabalho e dentro da realização de suas questões particulares, inerentes ao seu desejo. Também para ela esse momento com outro homem representa o reencontro com a própria plenitude sexual, com suas escolhas – uma mulher negra, reconstruindo sua identidade, nos dias de hoje consegue domar o que o destino lê na sua mão. É o que Jayane acessa o tempo todo, o da assertividade pelo que decide: ela quer, ela realiza; ela não quer, ela dá o jeito dela e deixa claro.

A Matéria Noturna
© Rede filme, Kussa Productions, Pique-Bandeira, Dilúvio Produções

Essa magia que exala de A Matéria Noturna, na verdade, não tem nada de mágico. Trata-se de uma polaroide muito contemporânea sobre uma fatia que não é buscada nas telas, não é valorizada na teledramaturgia, e ainda assim escapa ao olhar e vive uma vida cheia de significados. Aissa e Jayane são muito mais comuns, da cor exata que são, do que grande parte da sociedade gostaria de aceitar. Eles sempre serão invasores do alheio aos olhos de terceiros, quando só querem ter os mesmos sonhos, o mesmo tesão, a mesma entrega e, acima de tudo, as mesmas oportunidades.

Não sei de Lessa consegue alcançar todas as esquinas que pretendia, nem sei se sua câmera pretendia esse enfoque. Parece repetir algumas imagens que já vimos aqui e ali, ao largo da boa vontade. Mas a veia que pretende abrir vai além da composição imagética e encontra uma compreensão espacial de corpos não-hegemônicos, não no Brasil, mas no caráter global – o cinema não enfoca essas pessoas, nesse recorte, com essa frivolidade tão sedutora. É a ascensão do que há de mais mundano, de mais simples, é só se apaixonar, é só ser feliz, é só quebrar a cara mais uma vez… podemos, né?

Um grande momento
O super close de Aissa

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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