Crítica | Festival

Rolê – Histórias dos Rolezinhos

Não passarão

(Rolê: Histórias dos Rolezinhos, BRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Vladimir Seixas
  • Roteiro: Vladimir Seixas
  • Duração: 82 minutos

Há oito anos atrás, começava um movimento social que uniu as periferias de todo o Brasil que visava denunciar o racismo institucionalizado ainda praticado diariamente no país. Grupos se formavam em número avantajado e rumavam aos shoppings das cidades, geralmente com foco nas regiões mais abastadas das cidades, para provar sua tese referente a essa discriminação explícita. O documentário Rolê – Histórias dos Rolezinhos está na competição do Olhar de Cinema e rememora esse período, a força de sua mensagem, e o resultado dessas afirmações sociais na vida de várias lideranças da época.

Dirigido por Vladimir Seixas, o longa escolhe um enfoque mais especificado em torno de três personagens que, passados os movimentos, apresentam suas histórias nos dias de hoje, que não regrediu em lutas, registros de violência urbana exacerbada e adoecimento social diante de suas perdas diárias. O filme tem um forte teor de denúncia e consegue nos fazer empatizar com os relatos naturalistas em cenas cotidianas, e flagrantes de suas realidades. São pessoas com vozes de dor e de descaso governamental, sem espaço geográfico permitido para usufruir benesses que deveriam ser de usufruto coletivo, mas cujo resultado na prática é uma espiral diária de confrontos com sua própria existência.

Rolê: Histórias dos Rolezinhos
Foto: Divulgação

O filme utiliza de excelente material de arquivo sobre os episódios, muitos de violência absurda e inquestionável, que expõe um país apavorante, que mata pessoas pela cor de sua pele sem qualquer outra razão que não o racismo. Impressiona alguns momentos, como os que são detalhados a situação assalariada de inúmeras pessoas que discriminam tanto quanto os que se acham donos dos espaços; “eles são pobres como eu, pegam busão, tem conta pra pagar, e me olhavam com nojo”, e a imagem que complementa essa frase é estarrecedora, onde uma vendedora demonstra seu desconforto através do rosto. A força dessas imagens reflete na realidade dos personagens, que têm uma relação hoje mais positiva com seus corpos e verdades.

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Também está presente na produção a ideia de performances artísticas que remontem a estrutura do racismo na sociedade, em eventos solo ou em expressões coletivas, como o momento onde um grupo de mulheres negras esfrega o próprio cabelo em panelas e bacias dentro de um shopping. Partindo do princípio dos rolezinhos como uma expressão performática também, a ideia de reutilizar esse conceito como um ato provocativo faz sentido e agrega unidade ao projeto como um todo. É como se o processo que o filme apresenta caminhasse conjuntamente rumo a um estado de apresentação, visando a provocação e a posterior reflexão.

Rolê: Histórias dos Rolezinhos
Foto: Divulgação

Documentário cuja carga de denúncia eleva o material final e se mostra imprescindível para um debate público mais abrangente, Rolê – Histórias dos Rolezinhos não tem uma quebra de formalidade em seu formato, mas também investiga essa ideia de ampliar o assunto para longe do discurso e das imagens de arquivo, seguindo seus personagens sem questioná-los, apenas testemunhando suas ações. No quadro apresentado conjuntamente, o filme não subverte a estrutura de seu gênero, mas segue com tanta veemência em seu discurso que o espectador minimamente consciente amplia seu escopo de empatia e incentiva um olhar sem julgamentos. Sem utopias.

Um grande momento
A roda de conversa antes da performance no shopping

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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