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O Último Duelo

(The Last Duel, EUA, GBR, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: Ridley Scott
  • Roteiro: Nicole Holofcener, Ben Affleck, Matt Damon
  • Elenco: Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer, Harriet Walter, Ben Affleck, Alex Lawther, Marton Csokas, William Houston, Oliver Cotton
  • Duração: 152 minutos

O último duelo entre nobres numa justa faz sua transição das páginas dos livros de história para o cinema em um eletrizante filme de Ridley Scott, mesmo que este fique aquém de Gladiador, com o qual guarda semelhança temática. Adaptado do romance “O Último Duelo” de Eric Jaeger a história de honra, traição, crime e castigo datada do século XIV e que toma curso na emblemática região da Normandia, no noroeste da França, vem a ser uma das grandes narrativas medievais durante a Guerra dos Cem Anos, envolvendo uma inédita denúncia acerca de um estupro. E a grande força do filme vem da atuação de Jodie Comer como a vítima em questão, uma nobre casada com um herói de guerra, violentada pelo melhor amigo deste.

A justa era o principal esporte medieval, com dois cavaleiros de armadura e montados em cavalos se enfrentando num grupo de três confrontos com armas como a lança, o machado e a espada. Como eram os torneios na antiguidade entre gladiadores ou onde os gladiadores enfrentavam animais, muitas vezes em confrontos até a morte para satisfazer o público romano, a disputa entre cavaleiros satisfazia nobres e também o povo de Paris, que torciam para que o favorito trucidasse o adversário. Se alongando para chegar no duelo em si, Ridley Scott vai administrando o drama e a tensão em estonteantes cenas de batalha até o confronto final, com resultados drásticos — e gráficos — que expõem a barbárie da Era Medieval.

O Último Duelo
© Disney

A dupla oscarizada por Gênio Indomável Matt Damon e Ben Affleck assina o roteiro de O Último Duelo juntamente com a também cineasta Nicole Holofcener (que ainda produz o filme com eles), elaborando uma narrativa que justapõe três pontos de vista de forma epistolar. A primeira parte é dedicada a trazer a perspectiva de Jean de Carrouges (Matt Damon), nobre que cai em desgraça a partir do momento em que é antipatizado pelo Conde Pierre d’Alençon, que, por sua vez, era fiel suserano do rei da França e o chefe da casa de Valois, Carlos VI (que assumiu o trono com apenas 11 anos em 1379, no meio da Guerra dos Cem Anos); Carrouges salva a vida de Jacques Le Gris (Adam Driver) no campo de batalha mas logo percebe que o escudeiro é favorecido pelo Conde e toma atitudes drásticas para assegurar seus bens e prestígio. O segundo tomo ou linha narrativa da história focaliza na versão dos fatos de Le Gris, que enxerga o amigo Carrouges como alguém honrado ainda que inculto, além de mostrar como ocorre a aproximação com Marguerite (Jodie Comer) até a tortuosa cena do estupro. Por fim, a versão — que é creditada como a verdadeira no filme — de Marguerite, que aponta Carrouges e Le Gris como dois homens sem um pingo de nobreza de espírito, brutos e apenas preocupados em não ter suas reputações manchadas.

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A estrutura convencional do roteiro acaba se tornando enfadonha no decurso, já que a repetição elíptica dos fatos mesmo que sobre novas perspectivas não traz uma coisa engenhosa por meio da diegese e de outros recursos narrativos que poderiam atribuir vigor ao drama. E se O Último Duelo acaba sacramentando a sua fragilidade enquanto unidade fílmica que poderia existir como uma obra instigante sobre costumes medievais e a bárbara forma como as mulheres são e continuam sendo vilipendiadas, ao menos guarda algumas boas cenas e sequências especialmente decorrentes das atuações fortes e um trabalho acertado de Ridley Scott como diretor operário, evocando a crueza das batalhas e a emoção no confronto entre as três partes.

O Último Duelo
© Disney

Já em outros departamentos como a trilha sonora, o trabalho de Harry Gregson-Williams é apenas protocolar, a edição da ganhadora do Oscar Claire Simpson poderia ser mais inventiva, ainda que seja estonteante nos momentos de confronto, mas a fotografia de Dariusz Wolski talvez seja o único trabalho técnico realmente impecável. O filme tem uma paleta de cores frias, acinzentadas e escuras, uma tonalidade meio suja e bem condizente com a idade das trevas. Mesmo nas sequências diurnas o tom pesaroso se faz presente, em uma sinergia acertada da fotografia com o design de produção impecável em se tratando de uma história de época.

Damon faz de Carrouges um tipo muito interessante, o cavaleiro cruzado orgulhoso, bruto e vaidoso — tanto na sua versão quanto na de Marguerite — que não aceita ser injustiçado, mesmo que isso acarrete quebrar as regras da vassalagem. Apesar de não haver química enquanto casal, ele e Comer têm ótimos diálogos, que fortificam a escolha do cavaleiro em acreditar no testemunho da esposa e lutar para conseguir que o último julgamento por combate autorizado pelo rei e pelo parlamento francês ocorresse após dois meses de tentativas e missivas envolvendo cavaleiro e escudeiro. Por outro lado, Adam Driver como Le Gris tem uma atuação correta e sem grandes arroubos, mas que empresta a mistura de malícia, vilania e cinismo necessária para entrar na história.

O Último Duelo reforça o gatilho da violência sexual ao expor não uma, mas duas vezes a cena envolvendo uma desesperada Marguerite sendo dominada por Le Gris. Ainda que marcada por uma composição densa e presença magnética, a Marguerite de Jodie Comer acaba sendo também o elo mais fraco do filme, já que a parte em que nos conta a sua história é a mais quadrada em termos narrativos, deixando de lado a ambiguidade que seria um valor importante na trama.

O Último Duelo
© Disney

La petit mort

Ainda que hajam deslizes na construção do design da história e talvez escolhas pouco inspiradas dos roteiristas, cabem palmas a algumas sutilezas presentes em O Último Duelo. A melhor amiga de Marguerite que acredita que ela, por ter dito que Le Gris era bonito, pode ter cometido adultério e culpá-lo seria uma forma de esconder o deslize, esconde da própria o que realmente pensa até o fatídico momento do julgamento. E na sequência dos depoimentos perante a corte, como o clero tenta fazer Marguerite cair em contradição além de argumentarem que “é comprovado cientificamente que não é possível engravidar do estupro já que a mulher para conceber precisa sentir prazer“ ou que “o estupro não é um crime cometido contra a mulher mas sim contra a propriedade, o que fere diretamente o proprietário, o marido.”

Seja em momentos onde desafia os homens que dizem ter amor por ela (“Vocês só amam a si próprios”), que faz um monólogo a La Joana D’Arc quando é filmada quase que como mártir, Comer/Marguerite expressa toda a dor pelo seu destino. Ela engravida ao longo dos meses entre o crime e o duelo, confessando que, como mãe, não pode aceitar morrer na fogueira: “A criança precisa de uma mãe presente e não de uma mãe que esteja certa.” Algumas fontes na imprensa já dão conta de que a Disney irá inclusive bancar a indicação dela como atriz principal.

O Último Duelo
© Disney

E entre os trancos e solavancos que permeiam a história, os atores e a atriz vão mantendo a expectativa até a história se completar em si — a primeira cena de O Último Duelo envolve a preparação dos três, em 29 de dezembro de 1386, em Paris, para a justa mortal. E o embate tem todos os ingredientes que o tornam memorável.

Lorde e Vassalo no filme, os melhores amigos e roteiristas retiraram da versão final do script uma cena de beijo entre Pierre e Jean que era a expressão máxima da vassalagem (subalternidade medieval) e da obediência. Em entrevista ao programa Entertainment Weekly eles contaram que a sugestão foi de Ridley Scott e na substituição do beijo pelo ato de ajoelhar-se, a interação entre Affleck e Damon rendeu uma boa cena com improvisação. “Eu estava ajoelhado e no meio do meu juramento, ele me fala para vir mais perto, no que eu precisei me deslocar para frente e ajoelhar de novo. Dá para sentir a raiva mútua que existe ali”, contou o intérprete de Carrouges. E ainda que não seja nada espetacular, o Conde de Affleck tem seus momentos interessantes como esse e outros com Le Gris/Driver, inclusive deixando no ar uma conexão homoafetiva.

Um grande momento
Marguerite encontra a sogra na igreja

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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