Crítica | CinemaDestaque

Halloween Kills: O Terror Continua

Um Michael Myers para o hoje

(Halloween Kills, GBR, EUA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Terror
  • Direção: David Gordon Green
  • Roteiro: Scott Teems, Danny McBride, David Gordon Green
  • Elenco: Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Andi Matichak, James Jude Courtney, Nick Castle, Airon Armstrong, Will Patton, Thomas Mann, Jim Cummings
  • Duração: 106 minutos

O sucesso além das expectativas do ressurgimento de Halloween em 2018 só poderia mesmo preparar o mundo para uma continuação direta, com o mesmo David Gordon Green dirigindo inclusive, e começando exatamente da cena em que terminou o anterior – ok, rola um prólogo mais uma vez em 1978. Esse Halloween Kills: O Terror Continua já vai para um outro lugar do cinema, apesar de não negar sua origem slasher; na verdade, o fã do subgênero do horror especificamente terá muito a vibrar aqui, porque as escolhas imagéticas do filme privilegiam o que todo admirador espera de um filme dessa seara.

Green se mostra ainda mais à vontade com o material, tanto que convidou mais uma vez a mesma equipe de roteiristas do original (que inclui o ator Danny McBride), e consegue um raro feito de posicionar seu raio de ação no mesmo dia 31 de outubro o longa anterior, avançando uma madrugada infernal. Tem a delicadeza de construir um grupo carismático de pontes entre a família de Laurie Strode, em elenco muito competente que ajuda a manter o fio de interesse da história ao longo de todos eles. É uma escolha de abrir o escopo de maneira respeitosa com a própria obra e com cada um dos tipos apresentados em questão.

Halloween Kills: O Terror Continua
© Universal Pictures

Por se sentir tão em casa com o material (a ponto de já ter fechado o encerramento de um novo tomo de ação, o que consistiria em uma trilogia, para o ano que vem), o diretor acaba abrindo espaço para discussões dentro do gênero, mas ainda muito além. Ele resgata o Michael Simmonds que tinha feito um trabalho acima da média na fotografia do anterior, e aqui ele contribui muito para que o projeto seja bem sucedido. Um filme praticamente 50% dele feito de externas, todas noturnas, não é algo fácil de elaborar, e a parceria de diretor e fotógrafo resulta em tomadas de grande impacto visual, movimentação gráfica alinhada com o que de mais artístico poderia haver num filme comercial.

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Já essa discussão paralela do filme… bem, do meu humilde lugar, acho que cabe e o filme banca essa discussão com classe, sem perder mão do foco principal, que é entreter e construir a semântica do horror – na verdade é algo intrinsecamente ligado. Até que ponto o ser humano precisa ser provocado até reagir? 40 anos não é um ponto muito elevado para continuar apanhando sem revidar? A selvageria do qual hoje estamos ainda mais propensos, diante de tanta polarização, é uma porta fácil de entrar, e podemos reconhecer com facilidade um discurso do “olho por olho, dente por dente” dentro de cada cidadão do bem.

Halloween Pictures: O Terror Continua
© Universal Pictures

O filme debate conceitualmente a explosão de violência que nos leva a condenar sem julgar através de um cinema puramente comercial, o que nos faz perceber o crescimento do projeto. O fã mais xiita ficará melindrado (e até boicotará) o mergulho em um universo onde o pop é agregador de discussões sociais relevantes, não apenas emocionais. Halloween Kills consegue reconhecer as tessituras do contemporâneo, explorá-las verbalmente e imageticamente, e também contribuir para a emoção genuína de assistir a um personagem tão icônico quanto Michael Myers, ou pelo menos é feliz até psicologizar as intenções do próprio.

Esse é um reconhecido ponto fraco, e nem é do que tenta transformar Myers, mas dos próprios personagens, os mesmos que fogem há décadas dessa máquina de matar, a elucubrar razões menos práticas para seus atos. Ora bolas, tá no título – “kills”, ele mata e é isso. Com um gancho assustador para o capítulo seguinte que deixará o público estarrecido (e eu nem sei dizer se positivamente, até porque tudo pode acontecer), Halloween Kills é uma excelente pedida para quem curte o mais puro mergulho na hemoglobina, uma boa escolha pra quem busca compreender a sociedade desenfreada de hoje e uma má saída pra quem só quer ver o Myers matando; deixa o cara trabalhar.

Um grande momento
A armadilha

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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