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Entre Frestas

Para falar do absurdo

(Hiacynt, POL, 2021)
Nota  
  • Gênero: Suspense
  • Direção: Piotr Domalewski
  • Roteiro: Marcin Ciaston
  • Elenco: Tomasz Zietek, Hubert Milkowski, Marek Kalita, Adrianna Chlebicka, Tomasz Schuchardt, Sebastian Stankiewicz, Jacek Poniedzialek, Piotr Trojan, Agnieszka Suchora, Tomasz Wlosok, Miroslaw Zbrojewicz
  • Duração: 106 minutos

Em meados dos anos 1980, as ruas de Varsóvia assistiram a uma covarde perseguição, marcada pela discriminação e pela truculência. Eram tempos de AIDS e o Ministério de Segurança Pública Polonês, aproveitando-se do momento para destilar seu preconceito, resolveu criar um banco de dados de homossexuais do país. Foram numerosas prisões, onde, para serem liberadas, as pessoas eram obrigadas a assinar uma “carta de homossexualidade”. A operação levou o nome de Operação Hyacinth, tema do filme Entre Frestas, disponível na Netflix.

Terceiro longa dirigido pelo ator Piotr Domalewski, o suspense policial cria uma trama que além de expor o absurdo por trás da ação do governo, cria uma situação ficcional de eventos que obviamente tiveram lugar no período, afinal a corrupção é imanente ao ser humano e a imagem tradicional dos “homens de família” faz parte da política desde sempre. No meio da caça às bruxas, mortes suspeitas atraem a atenção da polícia e as investigação começam.

Entre Frestas
©Bartosz Mrozowski

Perdido entre os momentos está o ingênuo policial Robert, vivido por Tomasz Zietek, aquele que, depois de algum tempo parece o único interessado em capturar o seria killer. Não só protagonista, ele é a alma de Entre Frestas, aquele que faz a conexão entre o que seria a tradição reacionária e o que se persegue, o que repudia a postura corrupta, mas é forçado a assumi-la. A dubiedade está destacada desde sua apresentação tanto pela fotografia de Piotr Sobocinski Jr. — cujo trabalho ficou conhecido aqui com Corpus Christi — que faz um jogo interessante ao invisibilizar a grade que separa o personagens no furgão e o trabalho corporal do ator na mesma cena.

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O visual da indefinição segue por todo o filme, ao explicitar as dúvidas de Robert, dobrando sua imagem quando se tomam depoimentos ou ele se vê em situações de decisão. O jogo por vezes chega a ser óbvio demais, mas nem de longe compromete a experiência. O roteiro de Marcin Ciaston não tem uma estrutura inédita, mas não é acomodado. A perceptível vontade de fazer entrelaçar as histórias e a habilidade de Domalewski de fazer com que o suspense case com a trama pessoal do protagonista atraem o espectador.

Entre Frestas
©Bartosz Mrozowski

Na onda das novas aquisições da Netflix, que anda investindo pesadamente no mercado polonês, Entre Frestas se mostra um exemplar mais elaborado do que os últimos títulos lançados. Além disso, é um filme que consegue se comunicar muito bem com o público e, por meio de uma trama de suspense policial interessante, trazer à tona uma história real de horror, perseguição e preconceito institucionalizado.

Um grande momento
“Você ficou com o sofá”

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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