Crítica | TV e VoD

Convidado de Honra

No tom errado

(Guest of Honour, CAN, 2019)
Nota  
  • Gênero: Drama
  • Direção: Atom Egoyan
  • Roteiro: Atom Egoyan
  • Elenco: Laysla De Oliveira, Luke Wilson, David Thewlis, Cherie D'Elia, Sugith Varughese, Juan Carlos Velis, Joyce Rivera, Srdjan Vilotijevic, Roula Said, Isabelle Franca, Tennille Read, Alexandre Bourgeois
  • Duração: 105 minutos

“Minha teoria preferida sobre o porque que as patas de coelho são símbolos de sorte é porque eles vivem embaixo da terra e de lá se comunicam mais facilmente com os espíritos”

A frase é de Veronica (a atriz de ascendência brasileira Laysla de Oliveira), dita para o padre (Luke Wilson) que vai celebrar a missa do funeral do pai dela, Jim (David Thewlis). Quando questionada sobre quem foi o seu pai, ela começa a refletir e Convidado de Honra entra num fluxo temporal pretérito para refazer o trajeto emocional da filha e compreender os vínculos entre os dois e as pessoas que tem um impacto grande em suas vidas.

O coelho é simbólico na narrativa e na relação entre pai e filha. Benjamin é o animal de estimação de Veronica ainda menina e, na rotina do trabalho como inspetor sanitário de Jim, surge uma investigação em um restaurante sobre o processo problemático de matar e preparar para servir ao público. Com um ritmo claudicante, devido a sinuosidade proposta, mas mal engendrada, Convidado de Honra oscila. As sequências com Veronica num passado recente, adulta e atuando como maestrina, se vendo envolvida numa trama de desejo e assédio sexual de menores, além de perseguida por um motorista, são muito ruins; carecem de um melhor desenvolvimento dramático – o que inclusive dificulta a compreensão de como ela foi parar na prisão mesmo sendo inocente.

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Convidado de Honra
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Foto: Divulgação

O suposto trauma da infância, quando a mãe de Veronica morreu de câncer para logo ter como companhia a professora de piano é mal administrado na narrativa de Convidado de Honra. O espectador tem que, em cima de suposições, completar as lacunas para compreensão mais ou menos satisfatória sobre os vínculos entre Veronica, Jim, a professora e o filho dela, ex-namorado do Veronica que comete suicídio.

Um destaque e consequentemente o ápice do filme vai para as sequências no restaurante árabe de Garo (o ator e dramaturgo armênio Hrant Alianak) e Anna (a atriz de origem libanesa Arsinée Khanjian), que preparam coelhos dentro do estabelecimento desrespeitando todas as normas sanitárias.

Dirigido por Atom Egoyan (de O Doce Amanhã) cineasta natural do Egito e naturalizado canadense, Convidado de Honra tenta explorar, em três narrativas temporais, percepções sobre perdão, traição, penalidade, mágoa e amor fraternal.

Convidado de Honra
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Foto: Divulgação

O problema é que, mesmo com uma atuação densa de David Thewlis – o Lupin da saga Harry Potter – a tessitura de Egoyan não tem consistência dramática suficiente para proporcionar um belo filme como os que ele já foi capaz de fazer num passado já um pouco distante. Ao menos a colaboração que sempre rende belos momentos com o compositor Mychael Danna está presente nesse filme, com destaque para a peça que toca quando Jim encontra o chaveiro com pé de coelho e a partitura secreta de Veronica. Mas por outro lado, a fotografia é pouco inspirada, os enquadramentos são bregas e toda a encenação deixa Convidado de Honra parecendo um telefilme dos anos 1990.

Sobre o longo, Egoyan destacou que: “Embora entendamos desde o início do filme que seu relacionamento físico terminou com a morte do pai, os detalhes de seu passado são revelados em uma forma de autópsia psicológica.” O lamentável é que Convidado de Honra falha na investigação, não conseguindo estabelecer um elo de interesse mínimo e se tornando um grande mistério na filmografia por vezes inspirada do cineasta que ao menos nos revelou o talento de Sarah Polley.

Um grande momento
O pedido na cozinha do restaurante

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Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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