Críticas

Zinder

Sociedade em descaso

(Zinder, FRA, NIG, RSA, ALE, 2021)
Nota  
  • Gênero: Documentário
  • Direção: Aicha Macky
  • Roteiro: Aicha Macky
  • Duração: 85 minutos

A coragem de chegar bem perto da violência e encará-la, de explorar seus motivos, de observar suas origens, sem ocultar seus resultados, e ainda assim mapear uma região, o que se apreende dela e de uma fatia carente de seu povo. Zinder, cidade do Níger, dá título ao filme de Aïcha Macky na competição do Olhar de Cinema, e se debruça sobre uma estrutura predominantemente masculina de uma região marginal da cidade, que reconta seus históricos de manutenção dos canais de opressão social, cometidos e recebidos, por uma população onde a carência é uma palavra de ordem, e o ambiente é povoado de uma coleção de infrações.

Sem constrangimentos, os rostos e corpos que filma sempre muito expostos, com suas verdades explícitas em cada cicatriz, Macky os ouve de maneira paciente e deixa frequentemente eles se embrenharem por lugares de trauma, tanto para os próprios quanto para suas eventuais vítimas, que pagam o preço por um círculo vicioso de reformulação dos lugares de ódio. Sem qualquer justificativa e com falas recheadas de absurdos naturalizados por eles, o filme é um exercício de contenção de cada natureza, principalmente de sua autora, que escuta relatos de maus tratos contra mulheres e precisa continuar filmando.

O filme segue a movimentação com a qual Zinder, ou melhor Kara Kara, vibra – o comércio local não possa de trocas de contravenções de inúmeras ordens, na maioria contrabando de gasolina. Vez por outra, seus habitantes revelam mais do que deveriam acerca de seus lugares sociais, e se deixam flagrar em suas “atividades econômicas”. Como faz parte da normalidade local, tudo é tratado com coloquialismo e até o humor não falta entre esses homens e mulheres, ainda que vivam em condições de precariedade emocional.

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Essa inquietação que reverbera no espectador em relação àqueles personagens, neles não existe. O que há é uma história de vida muito severa, no qual eles respondem com humor e leveza, mesmo diante de temas tão absurdos. É de admirar a postura da cineasta diante do relato de um estuprador contumaz, que assume que praticava com regularidade tal ato, em diferentes mulheres. Nesse momento, sai o humor e entra uma seriedade, ao mesmo tempo em que não existe espaço para a reflexão; era o feito, e é isso. Macky segue filmando-o sem juízo de valor, mesmo diante da confissão de seus crimes. É dessa sobriedade que Zinder extrai seu melhor, igualmente quando filma as atividades do contrabando e se mantém impassível.

No meio de um grupo de homens, como vivem as mulheres? Curioso perceber que a diretora pesca uma personagem que se designa como hermafrodita na tela, como se a dizer que as mulheres só sobrevivem nesse meio se sua sina for a maculinização, assumir em si os padrões de masculinidade, inclusive arregimentando pra si os crimes e a postura frontal diante dos próprios erros. Talvez a mais fascinante personagem do longa, o filme a segue com discrição e assume uma postura mais cuidadosa em relação àquela vida particular, mas que na vida pública reflete ainda mais o contexto de desamparo, violência e ausência da figura do Estado entre aquelas pessoas. Ou seja, um filme político, com todas as suas particularidades e alertas.

Um grande momento
O contrabando na madrugada

[10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba]

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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