Crítica | FestivalMostra SP

Armugan

Lendas que se criam

(Armugan, ESP, 2020)
Nota  
  • Gênero: Fantasia
  • Direção: Jo Sol
  • Roteiro: Jo Sol
  • Elenco: Íñigo Martínez, Gonzalo Cunill, Núria Prims, Núria Lloansi
  • Duração: 91 minutos

O fim da vida e seu abandono, solidão, ignorância. A única certeza humana é cercada de não dizeres e não pensares e repleta de medos. “A melhor morte é a que não se percebe”, determinou-se, mas nem sempre é assim, há muita gente que sofre vendo a morte aproximar-se lentamente. É na solidão dessa espera que surge a figura de Armugan, aquele que acompanha a passagem, um assistente do fim da vida. Junto a ele, na função e em seus longos dias à espera dela, está um fiel companheiro, Ánchel, e outros elementos e seres que cruzam seu cotidiano, uns permanentes como Octavia, a que conduz, ou a ovelhas que o seguem, outros passageiros, como a vida que ele testemunha ir embora.

O diretor espanhol Jo Sol abre mão das cores e opta por silêncios e pela observação para contar a lenda que ele mesmo inventou sobre aquele que cumpre um papel que ninguém gostaria de cumprir. Armugan está preso a um corpo que o impede de ser independente e, não por escolha, segue sua jornada de encerramento de ciclos. É um avesso de Ilitia, traz sentimentos contrários aos das doulas. Tristeza no lugar da alegria, dor no lugar da esperança, morte no lugar da vida. O peso do fazer está nos espaços que Sol escolhe para filmar. A casa isolada em meio Pirineus Aragoneses, as longas caminhadas de Ánchel com Armugan nas costas, a cena à beira do lago dão dimensão do vazio, assim como os pequenos detalhes da casa modesta e da cumplicidade entre os dois personagens dão conta da abdicação.

Armugan
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

O tempo é um elemento importante na construção do universo, uma vez que a espera é o que de alguma forma relaciona o mundo do protagonista com o dos viventes, aqueles longe de seu universo. E o diretor alonga suas cenas, dá tempo a pequenos detalhes, inclusive buscando vida onde puder, de pequenos insertos a ovelhas que pastam tranquilas. O ritmo — e não só ele — muda quando Octavia chega para levar Armugan para mais uma travessia. O quadro, ainda em preto e branco, descobre uma nova luz, outras vozes, lamentações, muitos corpos e sons. Há vida em uma outra frequência, como se lá reino mítico as coisas não fossem reais. Se a construção da lenda já é interessante por si, essa definição e diferenciação de realidades, com direito a trânsito entre mundos, é o que o filme tem de mais interessante.

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Sol não segue lógicas formais e modelos estritos dentro das estruturas mitológicas e lendárias, mas estabelece um universo coerente baseado na intuição. Da elaboração do ser e de seus espaços à integração, tudo funciona bem, pelo menos até que o roteiro chegue a seu ponto de ruptura. Elemento fundamental para a trama, que chega com o inesperado e quebra com o estabelecido, o terceiro ato se apresenta um pouco atabalhoado em um trabalho que busca definir marcas para novas realidades que se apresentam. Há um quê de teatral que se atrela à atuação de Núria Lloansi, a desconhecida, e que contrasta com tudo o que se vira até ali, o que não é ruim, mas acaba gerando pontuais  subidas de tom em outras interpretações, e torna o conjunto inconstante. 

Armugan
Cecilia Barroso | Cenas de Cinema Cortesia Mostra SP

Porém, Armugan é uma experiência interessante pela temática, pela elaboração estético-narrativa e pelo trabalho dedicado na construção de uma lenda, com atenção a elementos, estruturas, sentimentos e ambientes.

Um grande momento
O fim

[45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo]

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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