Crítica | Streaming

O Último Mercenário

A graça do dragão

(Le dernier mercenaire, FRA, 2021)
Nota  
  • Gênero: Ação
  • Direção: David Charhon
  • Roteiro: David Charhon, Ismaël Sy Savané
  • Elenco: Jean-Claude Van Damme, Alban Ivanov, Samir Decazza, Assa Sylla, Eric Judor, Miou-Miou, Patrick Timsit, Valérie Kaprisky, Michel Crémadès, Djimo
  • Duração: 110 minutos

Apesar de já ter trafegado por momentos cômicos anteriormente, é preciso deixar claro que O Último Mercenário, o novo veículo de Jean-Claude Van Damme em sua estreia na Netflix, é essencialmente uma comédia, ainda que não abra mão das cenas de ação e que as realize com muita eficiência. Mas os fãs do astro belga que estiverem à procura do que já viram em O Alvo ou Risco Máximo, irão encontrar aqui um filme mais próximo aos que Jackie Chan costuma estrelar, sem que o ator seja o alvo da comicidade, e sim um veículo do gênero. E como toda comédia, o filme funciona mais ou menos dependendo da relação do espectador com o material.

Dirigido por David Charhon, que anteriormente já tinha demonstrado conhecimento dos códigos utilizados aqui em Os Incompatíveis, o filme é daqueles casos que já vimos muitas vezes antes, mas que facilmente conseguimos nos envolver com essa narrativa, seus personagens e suas adoráveis estripulias. Em um filme de espionagem, com agentes secretos, disfarces ridículos, vilões surpresa e uma relação familiar que precisa ser retomada, o equilíbrio de tantos eventos e suas resoluções precisa ser ainda mais acertado, e essa meta é amplamente alcançada.

O Último Mercenário
© Alois Maille

Com um começo demorado para encontrar seu ritmo, o filme se alicerça em torno de uma equipe improvável de mercenários — quase o anti– Os Mercenários repleto de astros onde até o próprio Van Damme já deu as caras. Aqui, temos um grupo de quatro desajustados em diferentes níveis liderados pelo ídolo dos anos 90, aqui muito à vontade. Um pós-adolescente revoltado e folgado, sua melhor amiga estudante de psicologia e traficante, o irmão da moça usuário do que ela vende e um funcionário do governo bastante fora de forma fazem parte desse grupo que chama atenção pelo seu deslocamento com o gênero, e por isso funcionam tão bem.

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Chama a atenção da produção seu elenco tão multifacetado e consciente do seu talento, incluindo a lendária Miou-Miou (de Loucuras de uma Primavera). Seu grupo de atores chama atenção quando exigido, todos com experiência em comédia e muito tranquilos em seus lugares em cena. O roteiro de O Último Mercenário, também de Charhon, é valorizado pelo timing desse grupo, que tem clara química funcionando principalmente na tentativa de realçar o quão diferentes são uns dos outros e como eles são figuras inesperadas para esse tipo de produção. Em especial Alban Ivanov e Djimo conseguem momentos verdadeiramente muito engraçados, e inspirados em suas composições em lados opostos, um agudo e o outro mais grave.

O Último Mercenário
© Alois Maille

A montagem do experiente Yann Malcor ajuda a manter O Último Mercenário em duas frentes que conversam de maneira efetiva, mesmo que o humor acabe prevalecendo mesmo dentro da seara da aventura. Os momentos onde o filme parece adquirir um outro perfil é quando Van Damme empunha sua arte como bailarino e lutador, ainda hoje fascinante. Ok, essa cenas não são frequentes quanto eram nos tempos de Duplo Impacto, mas elas são esperadas e comemoradas quando acontecem, e o ator parece guardar sempre o melhor para esses momentos, abrilhantados como no espacate da abertura ou na sequência do banheiro.

Na reta final, O Último Mercenário ainda homenageia seu protagonista com uma surpresa para o público. Um dos vilões do filme, além de ser aficionado por Scarface, mantém um salão de jogos inspirados nos anos 80, com posters clássicos como os de Jogos de Guerra, O Exterminador do Futuro e um encontro do grande dragão branco com O Grande Dragão Branco, uma delicadeza da produção com um ator que já enfrentou tantos altos e baixos, e aqui mais uma vez prova que consegue rir de si mesmo e de todos os outros.

Um grande momento
A família no banheiro

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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