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Fugindo do Amor

A nova comédia (romântica?) da Netflix não tem nenhuma pretensão de esconder que caminho vai tomar, mas também não deixa de ser inusitada. Fugindo do Amor está sempre entre dois pontos: é óbvio, mas engana; é super tradicional, mas inova; tem uma estrutura machista, mas com mulheres fazem exatamente aquilo que querem. Quem olha para a carcaça encontra de pronto um passatempo divertido, e aperta o play para dar uma risadas e não pensar em nada. Bom, isso vai acontecer. Mas, um olhar mais atento vai ver detalhezinhos no meio da bobajada que vão chamar a atenção, mérito é todo do roteiro de Tabi McCartney, em sua estreia, e Dana Schmalenberg.

A contradição entre óbvio e inusitado, tanto de estrutura quanto de contexto já estão nos primeiros minutos de cena. Ali estão a figura da amiga fiel escudeira, a sessão de fotos (com direito a blur no rosto), o imprevisto com o vestido e o apego ao passado traduzido em um objeto. Tudo isso, como bem se sabe, faz parte de um combo de clichês ultra batido do subgênero. A surpresa vem no modo como o sonho de Erica é destruído, literalmente, e em como isso não só começa como encerra sua jornada, dando sentido no desenvolvimento da personagem e descolando-a do objetivo maior de filmes irmãos, embora nem ela, nem o espectador saiba disso.

Fugindo do Amor
David Bloomer/ NETFLIX © 2020

O filme faz isso o tempo todo. Assume o tradicional para depois romper com ele de uma forma inusitada. Sabe quando a gente tem certeza que algo chegou exatamente onde estávamos esperando? Fugindo do Amor é isso,  ou pelo menos deixa essa impressão, mas, na verdade, o filme trilhou um caminho cheio de pegadinhas e a gente passou por elas, caiu, mas seguiu. Porque, no fim das contas, todos os caminhos eram possíveis. O melhor exemplo é Barrington, o cara que está com a protagonista na tradicional fossa e na superação, e que o filme quase ao mesmo tempo traz como possibilidade-impossibilidade. Logo, parte também da ruptura.

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Como todo filme do subgênero o filme tem aquela coisa de circundar um universo da felicidade baseada no estar com alguém, na completude pós-casamento e no homem como elemento primordial da vida. Reprovado no Teste de Bechdel — embora tenha muito mais do que duas mulheres, elas têm uma dificuldade enorme de conversar qualquer coisa que não tenha a ver com homens –, Fugindo do Amor, porém, também aqui tem lá suas diferenças. O clipe feliz, que acompanha a protagonista por dias ensolarados, com sorriso no rosto e fazendo coisas divertidas, parte daquela estrutura tão clássica que sem ela uma comédia romântica chega a ser desclassificada como tal, é completamente dela e só dela. Há uma independência, algo diferente do que se vê por aí, e um elemento paralelo na vida de Erica e Beverlly, que têm seus próprios projetos e não querem abrir mão deles. Pelo menos é o que dizem. 

Fugindo do Amor
David Bloomer/ NETFLIX © 2020

Nada disso é muito, são pequenos detalhes que fazem alguma diferença num mar de narrativas baseadas em fórmulas que se repetem há décadas, pequenas contradições que dão um saborzinho a mais para um comédia que também não vai durar nada além do que o tempo de sua exibição e também vai levar ao mesmo lugar que as outras. A direção de Steven K. Tsuchida, estreando em longas no cinema, não vai muito além do básico e dá muito espaço para Christina Milian, que tem ótimos momentos cômicos, como sua interpretação de “(I’ve Had) The Time Of My Life” ou até as reações físicas ao inofensivo lagarto da ilha. Participações especiais também divertem. Tem Jeryl Prescott fazendo discurso no jantar de casamento e Sylvaine Strike, com momentos mais irregulares, mas algumas muito inspiradas.

Fugindo do Amor é um passatempo gostoso de se ver e que garante algumas boas gargalhadas, além de momentos divertidos relembrando outros filmes como O Casamento do Meu Melhor Amigo e O Guarda-Costas. No final das contas, vai levar ao lugar esperado? Vai. Mas nunca enganou e tem a vantagem de saber rir de si mesmo.

Um grande momento
Cantando a primeira música

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Cecilia Barroso

Cecilia Barroso é jornalista cultural e crítica de cinema. Mãe do Digo e da Dani, essa tricolor das Laranjeiras convive desde muito cedo com a sétima arte, e tem influências, familiares ou não, dos mais diversos gêneros e escolas. Faz parte da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema e das Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.
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