Crítica | Streaming

Oferenda à Tempestade

(Ofrenda a la tormenta, ESP, ALE, 2020)

  • Gênero: Suspense
  • Direção: Fernando González Molina
  • Roteiro: Luiso Berdejo, Dolores Redondo
  • Elenco: Marta Etura, Leonardo Sbaraglia, Paco Tous, Álvaro Cervantes, Marta Larralde, Ana Wagener, Elvira Mínguez, Nene
  • Duração: 139 minutos
  • Nota:

Em determinado momento de Oferenda à Tempestade, um padre diz a protagonista Amaia Salazar (vivida por Marta Etura, de Cela 211) que não importa muito se devemos ou não acreditar em bruxas, rituais satânicos, possessões e seitas macabras, o que importa é que não apenas outras pessoas acreditam como estão provocando tragédias com consequências reais às vidas de tantas pessoas. Essa fala, que é mais uma vez reiterada posteriormente, tira do lugar da fantasia e abrange tudo que é mostrado dentro de um ambiente real não apenas esse filme, como toda a “Trilogia Baztan” que se encerra agora, pós O Guardião Invisível e Legado nos Ossos – e a melhora consideravelmente.

O diretor Fernando González Molina parece enfim evoluído e aperfeiçoado como autor depois de outros dois longas que até flertavam com um certo conteúdo, mas que não iam muito além da típica “adaptação cinematográfica de um hit literário”, padrão e sem muitas invenções formais ou elaboração visual. Ainda que o longa anterior tenha observado Amaia sob um contexto feminista de como estabelecer um código pessoal sendo mãe, esposa e profissional da lei, isso não se traduzia em escolhas visuais inesperadas. Lidando com uma uma possível legião de fãs da obra, o olhar do comandante foi para tocar o barco de maneira a não incomodar ninguém – e essa é a forma mais fácil de incomodar a todos, muitas vezes.

Marta Etura e Leonardo Sbaraglia em Oferenda à Tempestade

Rapidamente em Oferenda à Tempestade fica claro que finalmente uma assinatura visual é apontada. Em companhia do fotógrafo Xavi Gimenez, Molina acerta em enquadramentos pouco explorados no gênero, construindo uma atmosfera ambígua entre uma proteção aparente e o perigo ininterrupto, deliciosamente representado pelos tons de vermelho que a cidade adquire, que o transporta para uma circunstância que vai além da textura empregada pelos avermelhados rasgados. Como um eclipse de sangue, a série sai finalmente do lugar monocromático anterior que tirava a quentura e a agilidade de sua narrativa, agora sim empregados numa produção que também é um thriller policial.

Ainda que a tríade de filmes nunca tenha ambicionado ser uma diversão típica hollywoodiana esquecivel, faltava clima aos dois títulos posteriores, além de uma tensão que deveria impregnar o ar. Com a chegada desses elementos à nova estreia Netflix, fica claro que estava nessa combinação de ingredientes faltosos e que agora sobram na narrativa e na proposta visual os motivos pela evolução do projeto. Sem tratar de revolucionar, o filme agora fisga o espectador não apenas pela crescente humanidade com que veste seu enredo, como também pelo estado de tensão incômoda que o ritmo alcançado pela montagem de Varonica Callon; é finalmente um pacote de funcional qualidade.

Marta Etura em Oferenda à Tempestade

Marta Etura continua se entregando ao máximo às verdades de Amaia com muita convicção, mostrando em cada gesto suas contradições, suas dores, suas ausências. Encabeçando esse elenco muito orgânico, Marta capturou a essência de uma personagem tão humana e falha, e que só funciona a contento por conta da imensa galeria de atores e atrizes que a acompanha na empreitada psicológica dessa protagonista. Se Oferenda à Tempestade não avança ainda mais como produto, é porque a própria natureza da obra é revestida com certas doses de clichês, que se não esvaziam a obra, também o impede de voos ainda mais elaborados.

Com um olhar amplificado a respeito do universo feminino moderno e as atribuições que uma mulher carrega hoje, o filme alcança um lugar requintado esteticamente que justamente realça os desenhos de personalidade de sua protagonista. É um time que joga finalmente junto pra entregar um pouco além do que a série tinha apresentado até então. Defendendo valores ao mesmo tempo em que arranha outros, o filme admite as falhas de seus tipos enquanto delineia ainda mais profundamente outros, tudo como forma de engrandecer a si mesmo enquanto obra.

Um Grande Momento
Chegando à casa de Jonan.

Assista Oferenda à Tempestade na Netflix

Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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