Crítica | FestivalMostra de Tiradentes

Ontem Havia Coisas Estranhas no Céu

(Ontem Havia Coisa Estranhas no Céu, BRA, 2019)
Drama
Direção: Bruno Risas
Elenco: Viviane Machado, Julius Marcondes, Iza Machado, Geny Rodrigues, Bruno Risas, Flora Dias
Roteiro: Bruno Risas, Maria Clara Escobar, Julius Marcondes, Viviane Machado
Duração: 109 min.
Nota: 2 ★★☆☆☆☆☆☆☆☆

Não é coisa estranha no cinema brasileiro contemporâneo um cineasta branco, habitante de grande cidade, no mínimo de classe média, registrar o cotidiano de sua família. Bruno Risas engrossa a lista com este longa-metragem – gravado a partir de 2010 – que tem sinopse de ficção científica, cara de documentário, personagens de telenovela e clima de horror.

Do ponto de confusão pela total desconexão com o conteúdo apresentado em 109 minutos, em retrospecto, encontro como justificativa a invisibilidade. Não me vejo na tela (não que isso seja um problema necessariamente), assim como a vovó observa muita coisa isolada em outro cômodo; Flora Dias mal surge diante da câmera, mesmo sendo parte da família, e a mãe Viviane tem como grande cena, praticamente clipe de Oscar, um típico piti de atriz contra diretor – que, portanto, não existiria sem a interlocução dele. Ela parece a protagonista sem papas na língua, mas não passa de um fantoche na mão do filho cineasta/chefe, que está lhe pagando cachê e detém o controle da narração e das perguntas. Ao contido pai, único outro homem em evidência, é reservado o silêncio da cumplicidade. Seus reparos têm aspecto de aventura, enquanto o trabalho doméstico de Viviane deve ser interrompido por atrapalhar a captação de som – trabalho doméstico esse fetichizado em termos imagéticos, alvo de longos planos, e desprezado no discurso.

Sempre a serviço da casa ou do filme, a quase cruel mãe não sai da residência, quando o faz é voluntariamente abduzida e sua ausência tampouco é sentida pelos familiares. Nada muda quando ela parte, nada muda quando ela volta, e sua conclusão é que os dois “mundos” são iguais. Ora, não vivia ela também retirada de sua rotina normal estando à disposição do rebento e seu projeto? Não é meio parasitária de forma geral a relação mãe x filho?

Retomando a ideia de abdução, considero perturbadora a representação da família por não entender se eles estão tirando sarro da própria classe social com Romero Britto na parede, Todo Mundo Odeia o Chris na TV de tubo, reclamação sobre ausência total de dinheiro tendo carro na garagem, comentários sobre nunca ter suado na vida e a falta que faz “a minha Raimunda” – referência possessiva à empregada doméstica – ou realmente acreditam que retratam sem ironia a crise econômica dos últimos anos. Não deixa de ser ficção científica esta realidade brasileira sem negros numa suposta reflexão sobre trabalho e dificuldade financeira. Correção: eles existem focados numa sequência em que um assalariado acaba preso do lado de fora do portão da vila enquanto o operário que exerce seu ofício do lado de dentro é enquadrado entre grades como um prisioneiro. Para atento leitor uma imagem basta. Será que havia diversidade no outro plano visitado por Viviane?

Apesar de ser conhecido como “objeto não identificado”, o disco voador se torna a coisa mais discernível neste filme por se apresentar sem dubiedade, em leitura comum a todos, ao contrário da noção de aperto. Um pouco menos controversa neste contexto, a liberdade destaca-se em participações específicas da avó descrita como doida e demente, na água corrente e no céu que hipnotizam a mãe. No mais há a forte presença da direção e do inexpressivo relato de Bruno. Cinema visível, pessoas invisíveis. Ontem havia coisas esquisitas na telona.

Um Grande Momento:
Conhecendo mais sobre a rotina da diretora de fotografia.

Links

IMDb

[23ª Mostra de Tiradentes]

Taiani Mendes

Crítica de cinema, escritora, poeta de quinta, roteirista e estudante de História da Arte. Também é carioca, tricolor e muito viciada em filmes e algumas séries dos anos 90/00.
Botão Voltar ao topo
Fechar