Crítica | Cinema

Pantera Negra: Wakanda Para Sempre

T'Challa maior

(Black Panther: Wakanda Forever, EUA, 2022)
Nota  
  • Gênero: Aventura
  • Direção: Ryan Coogler
  • Roteiro: Ryan Coogler, Joe Robert Cole
  • Elenco: Letitia Wright, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Angela Bassett, Tenoch Huerta, Dominique Thorne, Michaela Coel, Martin Freeman, Florence Kasumba, Mabel Cadena, Julia Louis Dreyfuss
  • Duração: 160 minutos

O que nós legamos para o mundo? E o que legamos, ele é uma construção do que fizemos ou uma projeção do que poderíamos fazer? Essas perguntas, que poderiam e deveriam ser questões humanas para qualquer momento, se fazem presente em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre de maneira duplicada, dentro do filme e no extra filme. Chadwick Boseman não está mais entre nós, e o filme reafirma essa informação dentro da narrativa – o Rei T’Challa deixou o trono e se juntou aos ancestrais. Uma passagem tão prematura emociona a todos há dois anos, pela brevidade do tempo e pelo legado que tão rapidamente Boseman amealhou como o personagem, sendo porta-voz de um dos filmes mais bem sucedidos da Marvel Studios, em todos os sentidos. Pois todas as homenagens são feitas em cena aberta, no início e no fim; o resultado é verdadeiramente emocionante. 

Partindo do início do parágrafo, a ideia de substituição do Pantera Negra não é assimilada com rapidez pela narrativa; ela nem existe a princípio. Muito porque esse é o caminho do pensamento – como substituir uma ideia, como reagir ante a um futuro não cumprido? Isso parte de T’Challa e chega a K’uk’ulkan, o novo personagem apresentado pela franquia. Igualmente o líder de uma comunidade regida pelo vibranium, o personagem é assombrado por um passado que precisa ser respeitado e defendido, e que está sendo ameaçado pela chegada do desconhecido. É quando Wakanda e Talokan precisarão medir se o que os ameaça deveria uni-los, ou separar ainda mais dois povos segregados e diminuídos por suas etnias. Essa é uma das bases de Pantera Negra: Wakanda Para Sempre.

Pantera Negra: Wakanda Forever
Marvel Studios

Ryan Coogler aumentou suas escalas em tamanho exponencial, do primeiro Pantera Negra para cá. Tudo está maior, mais grandiloquente, mais esfuziante, mais evidente e muito mais grandioso. Ao mesmo tempo, há um predomínio de Wakanda enquanto cenário narrativo; sua presença está em espaços de maior circulação, dessa vez circundamos novos espaços geográficos do reino. O lugar dos EUA diminuiu, a participação de Martin Freeman também, e na verdade esse parece ser o apêndice mais desnecessário do longa. Wakanda agora é um lugar que está pronto para não precisar de espaço coadjuvante, sua presença pode ser total sem que sintamos a falta de uma colocação extra. A opção pelo aumento da escala afeta diretamente a terra natal da princesa Shuri, que surge majestosa em cena. E esteticamente, os figurinos de Ruth Carter continuam fazendo a diferença, aqui ainda mais impressionantes. 

Apoie o Cenas

O que Coogler pensou para Pantera Negra: Wakanda Para Sempre em teoria, faz menos sentido na realização prática. A montagem, por exemplo, a seis mãos, é o grande calcanhar de Aquiles do filme. Não é uma questão uniforme, porque o filme tem ritmo claudicante, às vezes avança e às vezes emperra, e nem é realizada da maneira mais caprichada. Temos a impressão de que algumas várias passagens são mal acabadas, por isso tiveram cortes abruptos demais, parecendo decepar as cenas – repito, isso não acontece uma vez só. Com a proporção ainda mais agigantadas que as coisas tomaram, é indesculpável que as coisas estejam realizadas nesse sentido, quase como se fossem adaptadas às pressas. Como se fosse um belo mosaico visto à distância, que ao nos aproximarmos percebemos os pontos desconexos. 

Pantera Negra: Wakanda Forever
Marvel Studios

Os efeitos especiais que eram um problema grave no longa anterior, logicamente evoluíram, mas não são necessariamente um ponto de sedução do filme, que tem sequências que parecem abdicar deles para uma ação mais direta. A sequência da luta na ponte, por exemplo, me parece muito mais funcional que o passeio por Talokan, um lugar pouco explorado e muito sombrio, ainda que o detalhamento tenha um certo primor. De qualquer maneira, não é parte gráfica-visual um problema grave para Wakanda Para Sempre, e sim o desenvolvimento de suas especificidades, como toda a transformação de K’uk’ulkan em Namor, com pouco espaço para a desenvoltura emocional que em Wakanda, faz toda a diferença. É como se o filme focasse na realização do mais difícil, deixando o mais simples incompleto. 

O elenco de Pantera Negra: Wakanda Para Sempre continua não sendo um problema, pelo contrário, eles são a mola propulsora para que o público se conecte a personagens tão díspares, uns entre os outros. Primeira coisa a fazer é aplaudir prontamente, se não foi feito antes, o trabalho de Winston Duke (de Nós), que estava excelente no primeiro e aqui continua. Letitia Wright (de Morte no Nilo) segura uma peteca pesada, a de ser protagonista de um longa como esse, com segurança. A estreia de Tenoch Huerta é promissora, e Lupita Nyong’o finalmente tem participação à sua altura. O grande destaque, no entanto, vão para Angela Bassett (nossa eterna Tina) e Danai Gurira , que nunca estão menos que espetaculares, e dividem os momentos mais lembrados da produção, em duelos de interpretação poderosos.

Pantera Negra: Wakanda Forever
Marvel Studios

Outro aspecto que não podemos deixar de ressaltar em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre é o fato de que trata-se, agora, de uma produção de representatividade única dentro da Marvel. Absolutamente feminino e preto, a linha de frente do filme apaga em absoluto produções como Capitã Marvel ou Mulher Maravilha do mapa, porque trata-se de algo ainda mais amplo. É um filme focado em um reino não apenas focado em mulheres, como elas são a base de toda a estrutura do elenco, que só encontra paralelo ultimamente em A Mulher Rei, mas é bom deixarmos esse filme longe da discussão, pois trata-se de uma produção infinitamente superior. O melhor a pensar é na união entre projetos dessa estirpe, que podem mudar o futuro da indústria com seus respectivos sucessos – se não de maneira direta, mas semeando um futuro promissor para jovens meninas como Zendaya, Taylor Russell e Halle Bailey.

O saldo final é positivo, onde terminamos com a vontade real de reencontrar o mais breve possível todos aqueles tipos que já nos identificamos, hoje, com a promessa de uma renovação que parece deliciosa. É uma pena que os esforços da Marvel Studios em colocar na rua as imensas proporções que seus filmes alcançaram atravancam o trabalho de reais artistas que eles contratam, como Chloe Zhao, Sam Raimi ou Ryan Coogler, que se veem destinados a cumprir ordens e tabelas muitas vezes inalcançáveis. Para essas ideias megalomaníacas, algo que deveria ser mais artístico como Pantera Negra: Wakanda Para Sempre acaba soando deslocado, e apressado. Não arranha o saldo do MCU, até aumenta seu valor, mas diminui o resultado de uma produção que tinha reais condições de alcançar lugares ainda maiores. 

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Francisco Carbone

Jornalista, crítico de cinema por acaso, amante da sala escura por opção; um cara que não consegue se decidir entre Limite e "Os Saltimbancos Trapalhões", entre Sharon Stone e Marisa Paredes... porque escolheu o Cinema.
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2 Comentários
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Rodrigo Monteiro
Rodrigo Monteiro
09/11/2022 12:03

É sempre complicado ler a crítica de filme que ainda não assistimos. Costumo evitar, mas estou tão animado com Pantera Negra que já li algumas. E tenho ficado feliz de saber que, mesmo com alguns tropeços, o saldo do filme é positivo.

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