Crítica | Festival

Para Onde Voam as Feiticeiras

(Para Onde Voam as Feiticeiras, BRA, 2020)

  • Gênero: Documentário
  • Direção: Eliane Caffé, Carla Caffé, Beto Amaral
  • Roteiro: Eliane Caffé, Carla Caffé, Beto Amaral, Ave Terrena Alves, Fernanda Ferreira Ailish, Gabriel Lodi, Mariano Mattos Martins, Preta Ferreira, Thata Lopes, Wan Gomez
  • Duração: 89 minutos
  • Nota:

“A placa de censura no meu rosto diz
Não recomendado para a sociedade
A tarja de conforto no meu corpo diz
Não recomendado a sociedade
Pervertido, mal amado, menino malvado, muito cuidado!
Má influência, péssima aparência, menino indecente, viado!”

Em um país “que é cada qual pra si e Deus por todos” aqueles que não são recomendados para a sociedade ainda assim colocam a cara no sol e tentam voar. Documentário construído de forma coletiva e colaborativa, Para Onde Voam as Feiticeiras tem como tônica ser palco para aqueles excluídos performarem. Ficando sob os holofotes, colhendo alguns apoios e também pedradas, os personagens que integram o movimento LGBTQIA+ estrelam o novo filme de Eliane Caffé (Era O Hotel Cambridge) que abriu o Olhar de Cinema em 2020. Aqui cabe a observação de que esse é o primeiro filme no qual a paulistana divide a direção, com a irmã Carla Caffé – também diretora de arte – e com Beto Amaral.

Para Onde Voam as Feiticeiras

Resgatando personagem de seu filme anterior – a militante do movimento dos sem teto e hoje influenciadora digital Preta Ferreira -, Para Onde Voam as Feiticeiras parte de uma premissa interessante, mencionando a lenda asteca da deusa Tlazoltéotl, da fertilidade, do ato sexual, associada à lua e que comporta dois gêneros. Tudo que orbita e existe no centro comercial da segunda maior cidade da América Latina teria potencial diegético para desencadear uma sólida base para o relato de sujeitos marginalizados mas que, insubmissos, querem enfrentar de frente o preconceito com muita criatividade.

O filme sobre a antiga hospedagem neoclássica, prédio de luxo no centro de São Paulo, foi sucesso de crítica e público talvez por transparecer agudamente que os moradores, alguns que lá estavam desde o começo da ocupação em 2012, são factíveis e realmente donos de suas narrativas. Aqui em Para Onde Voam as Feiticeiras a afetação ultrapassa o ar teatral, incomoda ao penetrar no dispositivo e tornar os artifícios narrativos muito encenados, plásticos e pouco envolventes, como as várias rodas de conversa ao longo do filme – as com os Guarani e com as mulheres. Impossível não pensar o que levou a cineasta a fazer um filme tão similar com o anterior na sua constituição mas de tessitura pouco inventiva ou mesmo generosa.

Para Onde Voam as Feiticeiras

Verborrágico em excesso, mesmo com personagens com backgrounds distintos e que aparentam ter uma interação muito rica, como Ave Terrena, Ailish, Tatah, Gabriel Lodi e Wan Gomez, Para Onde Voam As Feiticeiras desperdiça uma oportunidade de vocalizar os anseios de pessoas que querem viver sem o cisma do ódio. Tem alguns momentos que são involuntariamente engraçados ou funcionam, como as interações entre a trupe de artistas e militantes com o técnico de Som português, Vasco Pimentel.

Em meio a uma cacofonia imagética, que não permite o mergulho no universo ali retratado e nem abre espaço para o hibridismo estético com a vivência como personagens-atores (o que vem a ser o coração de, por exemplo, Era O Hotel Cambridge), esse novo filme agora das irmãs Caffé é composto de algumas boas cenas – como a ligeira passagem pela aldeia do pico do Jaraguá ou a apresentação simbólica do grupo afro Ilu Obá de Min – mas que oscila.

Para Onde Voam as Feiticeiras

Onde Voam as Feiticeiras engaja mais pelo impacto intertextual e a conexão com o espírito dessa era nefasta, bolsonarista, do que por uma potência cinematográfica. A emoção vem com o epílogo, especialmente pela maneira que a sequência é decupada e pelo que se expressa, primeiro nos olhos, depois na gesticulação e por fim em todo o corpo do homem trans Gabriel. Mesmo a presença – por videochamada – da filósofa e mãe da teoria queer, Judith Butler em um dado momento onde se aborda a transitorialidade dos corpos em alianças políticas, na solidificação dos movimentos sociais, parece mal aproveitada.

Maior impacto do que compreender que mesmo uma mulher como Preta que é negra e periférica, pode se integrar a causa dos amigues mas por não ter a vivência como pessoa trans, gay ou queer, não pode falar por elxs é a frase dita com muita consciência por Ave Terrena: “muito cuidado, é mais difícil do que parece fazer alianças.” E também é bem mais difícil do que parece fazer um documentário engajado, interativo, até creditando os personagens como coautores do roteiro, mas sem compreender, entender como e o porque de fazê-lo.

Cena memorável
No clarão de gente, para arder na fogueira dos pastores.

[9º Olhar de Cinema]

Lorenna Montenegro

Lorenna Montenegro é crítica de cinema, roteirista, jornalista cultural e produtora de conteúdo. É uma Elvira, o Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema e membro da Associação de Críticos de Cinema do Pará (ACCPA). Cursou Produção Audiovisual e ministra oficinas e cursos sobre crítica, história e estética do cinema.
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